Voyers de pão e circo

“Definitivamente, a sociedade brasileira se tornou uma feroz consumidora de lixo. Infelizmente, o sucesso do BBB diagnostica que a sociedade a qual fazemos parte encontra-se profundamente adoecida, além de culturalmente empobrecida”.

A cada início de ano, opiniões como essa pipocam nas redes sociais. Textos sobre alienação, depredação da cultura e burrice generalizada vem à tona e são viralizados em forma de compartilhamentos. Mais uma temporada do reality show Big Brother Brasil indo ao ar e, para o desespero da “nata cultural” da sociedade, milhares de pessoas fissuradas em frente à TV acompanhando e comentando, por três meses, a vida de pessoas desconhecidas. No caso dessa edição (BBB 20), de algumas que já são conhecidas – artistas e digital influencers.

Quer tentar assimilar melhor essa figura altamente superior aos demais? Pense em Regina Duarte ou Carlos Vereza. Pronto, não precisa ir mais longe. Mas, para despeito dessa burguesia que lê Drummond, assiste Fleming, ouve Beethoven e diz que “isso sim é cultura!”, o BBB segue com todos os membros do corpo intactos e uma autoestima invejável, rendendo, até mesmo, frutos promissores à sociedade, como atrizes, políticos e afins.

Ademais, quero chegar a um ponto específico: seria o BBB, realmente, o pão e circo do brasileiro? Pão e circo: modo com o qual os líderes romanos lidavam com a população em geral, para mantê-la fiel à ordem estabelecida e conquistar o seu apoio. Basicamente, uma ferramenta de distração para que a sociedade, em geral, não se revolte com questões políticas.

Minha intenção não é fechar a discussão ou imprimir uma visão cerrada, sim refletir sobre as engrenagens que moldam nosso lazer, que nos proporcionam prazer. Nem de longe quero me igualar aos chatos que definem o BBB ou qualquer outro reality show como pão e circo simplesmente porque veem como algo desprovido de relevância cultural, mas considerar o que nos leva a gostar tanto desse encarceramento midiático.

Outro exemplo claro dessa “diversão” é a família Poncio. O cantor da dupla UM44K, Saulo Pôncio e a sua irmã, Sarah Pôncio, continuam a causar grandes polêmicas midiáticas. A atriz Letícia Almeida, que namorava Saulo Poncio, engravidou do cantor Jonathan Almeida, que é casado com Sarah Poncio. Saulo terminou com Letícia e se casou com Gabi Brandt, digital influencer e ex-participante de um reality show. Estranho? Talvez, mas não para a internet, que é completamente fascinada por essa história – e sobre tudo que cerca essa família. Hoje, nas redes sociais, existem dezenas de perfis comprometidos a detalhar a vida dos integrantes do clã Poncio, divulgando diariamente informações sobre acontecimentos diversos e, por vezes, particulares. Os irmãos são filhos do pastor Márcio Matos, principal liderança da Igreja Pentecostal Anabatista, na Barra da Tijuca, frequentada por muitos famosos.

A coisa piora – como se toda a história já não fosse ruim o suficiente – porque Saulo tem por hobby trair sua esposa, Gabi Brandt. Em pouco mais de um ano de casamento, vídeos recorrentes e explícitos de traições chegam ao poder dos fofoqueiros de plantão – e a internet desaba a cada um. As pessoas literalmente fotografam e filmam qualquer passo dado por eles, seja uma ida ao shopping, um check-in no aeroporto ou um passeio na praia. Tudo milimetricamente controlado. O frenesi causado pelos Poncios, a meu ver, se assemelha ao causado pelas Kardashians.

As pessoas regozijam com a trajetória deplorável dessa família, que cada vez mais caminha aos trancos e barrancos, fingem se importar com a felicidade e bem estar da esposa traída, dos filhos provenientes das múltiplas relações (Letícia-Jonathan, Sarah-Jonathan, Gabi-Saulo), mas, na realidade, só agem como urubus com sede por saber da mais nova bomba envolvendo os personagens problemáticos – mesmo que seja só uma viagem que a Gabi fez sozinha com o filho pra uma cidade qualquer.

Mais que pão e circo, gostamos de estar no domínio da situação, de falarmos o tempo todo da vida alheia e de acharmos que nossas atitudes seriam diferentes e mais bem colocadas. Assistimos ao reality show e acompanhamos a vida & traições & desdobramentos da família Poncio esperando um erro para apontarmos novamente. É divertido ver gente como a gente fazendo as mesmas coisas que provavelmente faríamos, mas que, no final, vamos julgar. Se eles estão dando a cara à tapa, aguentem as consequências. Mais que pão e circo: não queremos apenas nos distrair, queremos nos espelhar.

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