Solidariedade em meio à pandemia: ajudas que deveriam ser alternativas salvam mais que o governo

Texto por Nathalia Braga e Mayara Mangifeste

Com um megalomaníaco na presidência e, um ministro da economia que acredita que os R$ 600 do Auxílio Emergencial é muito, a população começou a se organizar e ajudar um ao outro. Enquanto Paulo Guedes, no dia 20 de maio, sugeriu que esses 600 reais fossem parcelados em três vezes, coletivos que antes da pandemia já realizavam ações de solidariedade, estabeleceram uma rede de ajuda, não só nas regiões em que estão inseridos, mas também em  municípios vizinhos. Para o ‘Sinistro da economia’, o valor recebido pela população é muito: “Se falarmos que vai ter mais três meses, mais três meses, mais três meses, aí ninguém trabalha. Ninguém sai de casa e o isolamento vai ser de oito anos porque a vida está boa, está tudo tranquilo”. 

Nesse momento em que o Governo deveria estar agindo para diminuir o impacto da fome e do desemprego de uma forma inteligente, vemos prefeitos e governadores afrouxando o isolamento, como aconteceu em Duque de Caxias. O segundo município com mais mortes no Rio de Janeiro, abriu no dia 25 de maio o comércio, que até a reabertura oficial, não tinha fechado 100%. Lojas de roupa,  artigos de festa e de capinhas para celular, funcionavam perfeitamente. Além disso, o prefeito Washington Reis decidiu não pagar os R$ 50,00 do Auxílio Merenda, como havia prometido no dia 26 de março. São cerca de 72.500 mil alunos que estão aptos para receberem a quantia. 

Alguns familiares relataram que não receberam ainda nem a primeira parcela. Para piorar a situação, o chefe do executivo municipal esqueceu a realidade da região em que governa: para receber o auxílio merenda, os responsáveis pelos alunos deveriam se cadastrar no PicPay. Dani Marinho, de 22 anos, uma das coordenadoras do Movimenta Caxias, instituição criada em 2017, que unia coletivos da cidade que sempre atuaram juntos, explicou: “O Pic Pay é uma carteira digital, então a pessoa teria que: baixar o app, cadastrar o CPF para poder cadastrar o filho e depois enviar para uma outra conta e poder sacar. Se nem eu que sou uma pessoa que estou coordenando a comunicação do Movimenta, que sei mexer nas redes, não sei dizer como funciona o picpay, você imagina uma mãe de família com seis, sete filhos em vulnerabilidade social e que nao tem internet, celular ou computador. Que não terminou o ensino fundamental, que não teve uma escolarização, tendo que ouvir que pode receber um dinheirinho para merenda da sua criança se você baixar o app do picpay”. 

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A ajuda que pode salvar

Para sobreviver a esse caos, a ajuda do próximo é essencial, não somente com a entrega de cestas básicas, mas com o auxílio a pequenos negócios, a garantia de proteção com a entrega de máscaras, álcool em gel, água potável e o acesso à outros benefícios, que são direitos da população. Essa ajuda não é só uma boa ação, mas também é política, é a mínima garantia de direito. 

“Acostumados” a viver em uma necropolítica, que é quando o Estado escolhe quem deve viver ou morrer, movimentos periféricos estão se colocando na linha de frente para o combate e a contenção de danos da Covid-19, fazendo o papel que o Estado deveria estar fazendo. Como, por exemplo, a higienização de favelas do Rio de Janeiro, como Cidade de Deus, Maré, Rocinha, na capital do Rio, e também em alguns pontos de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Nessa escolha entre quem morre e quem vive, nessa naturalização da morte, com uma política de extermínio do pobre e do preto, vemos frases como do presidente da XP Investimento, um dos mais ricos do Brasil – com um belíssimo e desigual patrimônio de 1,2 bilhão de dólares -, dizendo que o “pior” da doença tinha passado e que o “Brasil está bem” porque o pico nas classes média e alta, haviam passado.

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Produtora cultural e ativista da Baixada Fluminense, Alexandra Mércia faz higienização contra o Covid-19 nas comunidades de Duque de Caxias | Foto: Instagram @malebxd


Para a contenção de alguns danos, como a fome, o grupo Movimenta Caxias mapeou bairros mais vulneráveis para começar a distribuição de cestas básicas. O que começou como uma ajuda ao mais próximos, ocasionou na construção de rede entre mais de 30 grupos de vários pontos do estado do Rio, como Baixada Fluminense, a capital e Niterói. Antes da pandemia e do decreto de quarentena, o grupo já tinha projetos para distribuição de cestas e auxiliava os cidadãos a acessarem os aparelhos públicos sem cair no famoso coronelismo dos vereadores da Baixada Fluminense, que é algo como “faço esse favor e você vende sua alma para mim nas próximas eleições”. Para isso, eles planejavam fazer uma pesquisa de fatores sociais que contribuísse para novas ações e, com a volta para o mapa da fome, eles já sabiam que o isolamento social teria pouca adesão nos municípios mais pobres. 

“Era muito nítido que rico teria acesso a saúde, meios para poder se curar, precaver e as pessoas pobres teriam que continuar trabalhando para poder levar a comida para casa. E essa parte da comida é um ponto central, porque a fome é uma marca da colonização muito forte. Então se uma pessoa pobre tiver que escolher entre morrer de fome, que é uma marca muito forte, ou morrer de coronavírus, que pode ou não morrer, a pessoa prefere testar a vida, se colocar em risco”, afirmou Dani. 

A onda de solidariedade limpando a contaminação 

O que começou com a entrega de 200 cestas, se transformou em 20 mil cestas, 32 toneladas de produtos de limpeza, 37 toneladas de alimentos orgânicos e 8 mil máscaras de pano reutilizáveis.  

“A gente organiza tudo no Galpão Goméia, que é um espaço de Coworking coletivo, que várias organizações se juntam ali e fica no centro de Caxias. É um espaço muito bom para poder se organizar e está funcionando hoje como um galpão mesmo de logística, de organização. Nossas entregas são sempre 600 cestas por dia direcionadas para alguma liderança, às vezes 2, 3 lideranças no mesmo dia, com uma equipe de voluntários”, complementou a estudante. 

Outra onda de ajuda nesse isolamento veio dos cursos gratuitos que diversos sites e profissionais disponibilizaram, entre eles, a Jornalista e Publicitária Tássia di Carvalho, criadora da Agência Is, empresa que auxilia a comunicação de projetos sociais. A empreendedora criou uma “vaquinha” para capacitar, ao menos, 300 empreendedores de favela do Rio de Janeiro em Comunicação Digital, para se adaptarem ao novo mercado que nascerá durante e pós pandemia. 

E, enquanto diversos grupos se desdobram para colocar a comida na mesa de famílias periféricas, o estado entra com a bala e a morte. No dia 20 de maio,  PMERJ interrompeu a distribuição de cesta com um intenso tiroteio, o jovem João Vitor Gomes da Rocha, 18 anos, foi atingido e não resistiu ao ferimento. Leandro Rodrigues da Matta, de 40 anos, também foi outra vítima da violência do estado. No dia 28 de abril, Leandro foi até a casa de um amigo entregar cestas básicas e minutos depois foi alvo do policial Bruno Bahia do Espírito Santo. E mesmo após o STF proibir operações policiais durante a pandemia do coronavirus nas comunidades do Rio, os moradores continuam relatando tiroteios intensos dentro das favelas. Segundo o Fogo Cruzado, foram oito tiroteios durante as ações sociais, resultando em quatro pessoas feridas e quatro mortas no Grande Rio. Como se manter seguro dentro de casa e praticar um isolamento social responsável, se a polícia invade casas e mata crianças?

A defensora dos Direitos Humanos e Co-fundadora do Coletivo Papo Reto, Renata Trajano, relatou em seu twitter a forma que o estado tem tratado as favelas nesse período: “fui abordada pela PMERJ com pistolas e fuzis impunes apontados pra nossas cabeças”. Isso aconteceu enquanto ela e a equipe estavam indo para mais um dia de entrega de cestas básicas e kit de higiene, no morro dos Mineiros no Complexo do Alemão.

Esses projetos e inúmeros outros estão tentando estancar uma ferida aberta há tempos: a desigualdade. Não só nesse momento de pandemia, as lideranças locais, os movimentos sociais, as ongs e outros grupos, não estão fazendo apenas “solidariedade”, estão fazendo atos políticos em favor do povo. Não oferecem apenas o básico como água e comida, oferecem ajuda, cultura e educação.

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