Sem ritos de despedida: A dor da perda que afeta milhares de vidas não comove Bolsonaro

Desde os primeiros casos confirmados no Brasil, as consequências causadas pela pandemia da Covid-19 ainda são incalculáveis. Seja na área da saúde, econômica, psicológica ou, até mesmo, espiritual, várias pessoas estão sendo afetadas de diversas formas. Mesmo com o grande risco de contágio do coronavírus entre todos grupos sociais, as favelas e os subúrbios estão mais vulneráveis durante a pandemia por conta do histórico descaso do Estado com essas regiões. A cada dia que passa, descobre-se um novo problema e um novo medo em relação ao vírus. 

Empenhado em prestar um enorme desserviço ao país durante a pandemia, o presidente Jair Bolsonaro já minimizou o risco do vírus, quebrou quarentena, demitiu ministro da saúde e contrariou a comunidade científica promovendo o uso da cloroquina. Marchando com convicção na contramão das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), Bolsonaro se preocupa apenas com o seu governo, põe diversas vidas em risco e parece não se importar com isso.

No início de abril, imagens de centenas de covas abertas no Cemitério da Vila Formosa – o maior da América Latina, localizado na zona leste de São Paulo – chocaram e circularam o mundo. A imagem ganhou destaque na capa do jornal Washington Post, que fez questão de lembrar que o presidente já tratou a doença como uma “fantasia”. O retrato do caos eminente reproduzido por essa imagem, traduz o sentimento das famílias que estão tendo que lidar com a difícil perda de um ente querido durante esse momento de inúmeras restrições e adaptações. 

Isolamento na hora do adeus

Nas redes sociais, pessoas relataram as dificuldades de passar pelo ritual fúnebre durante a pandemia. As recomendações sanitárias contra aglomerações e de distanciamento social resultaram em partidas sem a devida despedida. A Prefeitura do Rio determinou, na última quarta (28), que os enterros no município só poderão durar uma hora com a presença de até seis pessoas, enquanto durar a pandemia. A determinação também recomenda que “os corpos, nos casos confirmados ou suspeitos de Covid-19 ou outra doença infectocontagiosa deverão ser destinados, prioritariamente, para cremação”. Além dos ritos institucionais, a pandemia também afetou ritos espirituais de religiões de matrizes africanas, como o Candomblé. O historiador e escritor Luiz Antônio Simas, autor de livros sobre samba, carnaval, ‘suburbanidades’ e religiosidades afro-ameríndias, falou sobre os efeitos da pandemia na religião. “Existe no candomblé uma cerimônia fúnebre chamada ‘Axexê’, que é um ritual para os falecidos que são iniciados na religião. Quando o falecido tem o santo feito, o orixá raspado na sua cabeça – como costumamos dizer – ele passa por essa cerimônia fúnebre. O axexê demanda tempo, possui uma série de ritos e procedimentos feitos pela coletividade do candomblé”.

Simas ressaltou também sobre a importância do ritual para os candomblecistas. “O axexê é uma cerimônia crucial, porque na cosmogonia do candomblé ele representa a restituição do seu espírito – podemos falar assim para quem não é do candomblé entender melhor –  ao que a gente chama de “todo primordial”, que completa o ciclo da vida. O candomblé considera que o ciclo da vida só está completo quando realizadas as cerimônias rituais ligadas à morte”. Mesmo com a dificuldade de se cumprir os ritos de passagem durante a pandemia, Simas acredita que o candomblé vai se adequar para superar. “A prioridade é a saúde em tempos de pandemia. Então eu tenho a impressão que isso (o ritual) depois é resolvido, porque as religiões de matrizes africanas tiveram que se adequar para permanecer. Ao contrário do que se imagina, elas não são estáticas, elas são dinâmicas. Se tem hoje outra dinâmica, eu tenho impressão que essa dinâmica vai ser encontrada”, finalizou. 

– “E daí?”

Ao contrário do esforço de indivíduos, governantes e grupos religiosos  para superar as mais de 5 mil mortes* no Brasil pelo coronavírus, Bolsonaro mostra total desprezo e desdém pelas vidas perdidas. Perguntado sobre o número de mortes número de mortes no Brasil ter ultrapassado a China, o presidente mostrou mais uma vez quem é, respondendo: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”.

*Número atualizado no dia 28 de abril de 2020

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