Santa luta, Santa Ceia

O que será que São Nicolau tá fazendo a essa hora? Com certeza não é o mesmo que eu, apertado nesse Japeri lotado às 7 da manhã. De certo que o maluco tá na Europa e eu to aqui, indo a Madureira para acabar de comprar os presentes pro Natal.  Fi, se tu deixa as coisas pro último minuto, tu não pode me julgar. Fazer no dia 24 tem mais emoção.

Pés fincados na lataria do trem e segura firme numa posição. A superlotação é uma das ferramentas de opressão que mais tangenciam os cariocas, mas, nessa época, costuma-se esquecer transporte público, governo, dívidas, briga na família e o preço do carvão. Os semblantes deveriam, ao menos, parecerem mais felizes. O espírito natalino, que para o carioca é quase como o Carnaval – assim como qualquer festa nesse estado de meu Deus –, não está presente nem nos ambulantes. Irmão, tem alguma coisa muito errada. Manhã do dia 24 e não vi ninguém estalando um latão sequer.

Próxima estação, Madureira. Porra, Madureira nunca decepciona. Aqui o Natal chegou: gritaria, funk tocando nas lojas, criança fazendo pirraça, passarela do Mercadão socada, cachorro de rua com rato na boca. Só os enfeites de boneco de neve que não ornam, né. Puta que pariu, de onde tiraram que tem neve no Brasil? Neve no Rio de Janeiro? Com o sol que aqui a gente frita ovo na cabeça de careca. São Nicolau não sobreviveria 5 minutos aqui e isso só prova que, de fato, nós somos melhores que eles em tudo.

Depois das muambas, última parada do dia: mercado. Papai Noel também tem ceia em casa, ninguém é de ferro, bacana.

— Fala tu, Claudin. Como que tá a família?

Faaala, negão. Todo mundo bem, e lá, tudo certinho em casa?

— Tudo em paz, graças a Deus. Dona Ester reclamando de tudo, como sempre.

Seu Cláudio, açougueiro do mercado de médio porte da favela. Respeitado por todos, temido por ninguém. Eventualmente cachaceiro.

— Ô fera, que preço é esse do contrafilé? Cinquenta conto no quilo eu vou de picanha, né?

— Vai não, fi, a picanha tá R$ 66.

— Absurdo isso. Como é que o pobre vai comer no Natal?

— Isso é culpa do dólar… o dólar subiu muito…

Que que tu sabe sobre dólar, Claudin?

— Nada, eu só li no face. Pra mim isso é desculpa do patrão pra aumentar o preço porque sabe que os babacas vão comprar. Pimenta no olho dos outros é refresco.

— Antes a gente deixava de comprar bacalhau porque bacalhau é coisa pra rico, agora eles querem deixar a gente sem carne também. Não é mole não, meu filho.

— Seu Dimas falou que difícil conseguir fornecedor com preço bom aqui pro mercado. É difícil pra gente também porque, com o preço lá em cima, fica difícil vender, né.

— Fica nada, o pobre não vai deixar de comprar não. Vai se apertar, negão, mas vai comprar porque carne na mesa do pobre é felicidade, é sucesso.

— Pior que é verdade isso… Imagina a ceia de Natal sem carne, Zé.

— O Natal desse ano já não tá aquelas coisa, né, se tirar a fartura do pobre o bagulho vai ficar doido.

— É triste mesmo. vendo a galera pegar muito frango.

— Enossos governantes não fazem nada. Ninguém tá nem aí pra população, geral se fudendo.

— Ué, tu não viu o que o Presidente falou? Desejou um feliz Natal pros brasileiros, mesmo que sem carne para alguns. É um desgraçado mesmo, ainda debocha na nossa cara.

— Ele fala isso porque na ceia dele vai ter carne de cordeiro, esse filho da puta.

— Verdade…

Pensei em quando me autoproclamei o Papai Noel carioca. Suburbano, cansado das porradas da vida e prestes a me aposentar. Fui condecorado nas favelas. Entrego, desde então, presentes todos os anos no dia 25 em diversas áreas periféricas dessa cidade maravilhosa. Diferente do que tentam nos entubar, eu sou um homem negro. Nunca foi difícil chegar a lugar algum com a roupa vermelha porque essa é a figura natalina que os representa.

Acredito no amor, na redenção, no divino e na espiritualidade. Acredito em Deus e na sua profunda misericórdia. Acredito, principalmente, na força que vem do subúrbio e na vontade de fazer acontecer. Acredito em nós por nós. Por mais que tentem, não vão conseguir tirar do povo o seu orgulho e sua benevolência. E, para ser sincero, carne na mesa nunca deveria ser um luxo.

De uma coisa estou certo: Deus não se esquece dos pobres.

— Tchau, Claudin. Bom trabalho pro senhor, boas festas, manda um abraço pra família.

— Até mais, meu filho, feliz Natal e bom trabalho amanhã. Deus te abençoe.

— Amém.

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