Racismo ambiental: mais perto do que imagina

“Racismo” e “ambientalismo” são termos já bem assentados no imaginário popular, mesmo que de modo bem simples. Em uma conversa com quem quer que seja, não seria absurdo presumir que a pessoa tem uma compreensão básica desses dois conceitos, mas e quando essas duas ideias se cruzam? Racismo ambiental pode parecer um conceito um tanto abstrato a primeira vista mesmo para quem conhece essas ideias de modo separado, já que ela é pouco difundida fora de meios acadêmicos e ativistas e só recentemente vem ganhando mais destaque nos meios de comunicação. Uma pesquisa no Google sobre o conceito se restringindo a aba de “Notícias” apresenta somente 1.200 resultados, com nenhum deles de antes de 2019. Na aba geral do mecanismo de pesquisa, são somente 195.000 resultados, a maioria destes voltada para textos acadêmicos ou para blogs que já discutem o tema há muito tempo.

 Mas o conceito de racismo ambiental é discutido desde os anos 1970, e num cenário em que mudanças climáticas e ambientais têm se tornado cada vez mais evidentes, a necessidade de encarar esse tema é urgente. Em termos práticos, o racismo ambiental se dá quando grupos marginalizados são expostos, de modo desproporcional, aos impactos ambientais causados por determinados tipos de indústria e práticas, como, por exemplo, lixões em áreas periféricas, ou uma fábrica que despeja produtos tóxicos em um rio utilizado por uma comunidade com população negra.


A luta contra o racismo ambiental é um desdobramento – ou consequência – da luta ambiental nos anos 70 e 80. O professor da Universidade do Texas Robert D. Bullard, no seu livro Dumping In Dixie (dixie é uma gíria para se referir ao sul dos EUA, uma tradução aproximada seria “Despejando no Sul”) conta que, nos Estados Unidos, os primeiros movimentos ambientalistas, focados na preservação da fauna e da flora, diminuição da poluição e afins, era formado por pessoas brancas de classes média e alta, que se opunham a construção de projetos visto como ambientalmente danosos para a comunidade, dando origem às políticas de Not In My Backyard (Não No Meu Quintal) ou NIMBY. Um exemplo dessa política, se deu na Califórnia, no condado de Orange, em que residentes, preocupados com a poluição do ar e sonora da região, evitaram que uma base militar em El Toro se transformasse em um aeroporto comercial, em 2002.

 Entretanto, se comunidades brancas e afluentes possuem recursos materiais, políticos e financeiros para realizar uma oposição efetiva aos impactos ambientais, o mesmo não pode ser dito das populações periféricas. Como consequência das políticas NIMBY, as obras e projetos que não foram construídas em espaços brancos fatalmente encontrariam, em tese, menos resistência – ou uma resistência com menos  recursos – em espaços ocupados por pessoas marginalizadas.

 Exemplo recente disso se deu na reserva indígena Standing Rock, localizada entre os estados de Dakota do Norte e Sul, onde a população nativa luta desde 2016 contra a construção de um oleoduto, chamado de Dakota Access Pipeline, com extensão de quase 2 mil quilômetros em terras consideradas sagradas pelas tribos do local, além de colocar em risco o abastecimento de água das tribos. A rota original do oleoduto passaria por Bismarck, capital da Dakota do Norte, mas foi considerado perigoso para a água potável dos residentes da cidade, o que não está sendo considerado nas terras nativas. Um detalhe importante: enquantos os nativos de Standing Rock seguem lutando para impedir a construção do oleoduto, os residentes de Bismarck, cuja população é 93% branca, nem ao menos precisaram pedir para que a rota da construção fosse alterada, o corpo de Engenheiros do Exército Americano percebeu o risco e alterou a rota, resultando na situação atual.

 O racismo ambiental se manifesta mesmo quando grupos minoritários conseguem alguma espécie de vitória ou compensação pelos prejuízos causados às suas comunidades por grandes empresas. Um dos casos emblemáticos da história do movimento nos Estados Unidos mostra isso. Há no território Americano um trecho de pouco mais de 172 quilômetros ao longo do Rio Mississipi, entre as cidades de Baton Rouge e Nova Orleans, que é conhecido como “Beco do Câncer”, devido a alta presença de indústrias que liberam gases tóxicos na região, a maioria delas localizadas em comunidades negras, nativas americanas ou latinas. Em 1980, Mary McCastle, uma senhora de 75 anos, ao lado de outros residentes da comunidade de Alsen, que se localiza no Beco, formou a Coalizão para Ação Comunitária, e passaram a registrar o impacto que as atividades da empresa Rollins Serviços Ambientais, que se desfazia de lixo tóxico, teve na comunidade. Nas palavras de McCastle, “os jardins e os animais da comunidade estavam morrendo”. Assim, a Coalizão levou Rollins à justiça, no que ficou conhecido como McCastle v. Rollins Enviromental Services, e foi resolvido fora do tribunal em 1987, com cada um dos demandantes do caso recebendo entre 500 a 3 mil dólares, e para isso tiveram que desistir de ações posteriores contra Rollins. No livro Toxic Communities (Comunidades Tóxicas), a socióloga Dorceta Taylor contrasta essa história com a de um fazendeiro branco e rico, que possuía terras próximos a propriedade de Rollins, levou a empresa a justiça por derramar água em suas terras que colocou em risco o seu gado, ele recebeu 500 mil dólares.

 Evidentemente, as ocorrências de racismo ambiental não se resumem ao território Norte Americano. No Brasil, ele se revela de modo perigoso e estrutural, como a presença de lixões em áreas periféricas, e até mesmo no modo que o país lida com a poluição. No artigo da Professora da UFRJ Lise Sedrez sobre a Baía de Guanabara, intitulado “Os sentidos de fronteira e o lugar: construindo a baía de Guanabara como uma fronteira ambiental” ela escreve que, na visão dos engenheiros do Instituto de Engenharia Sanitária (IES), enquantos os países desenvolvidos podem ter uma postura de tolerância zero com a poluição, já os “países em desenvolvimento tinham que aceitar certos níveis de poluição devidos aos altos custos para a sua eliminação”. A própria Baía é um exemplo de uma situação de racismo ambiental, já que para sua despoluição, os engenheiros da IES propuseram um modelo que dividiu a zona em 4, com a Zona 1 sendo a menos tolerante para poluição, voltada para uso recreativo, e a Zona 4 a mais tolerante, para navegação comercial. No mesmo artigo, Sedrez observa que esse zoneamento reforçou as desigualdades da região, já que a zona 1 foi estabelecida em locais de classe média e alta, enquanto zonas mais tolerantes com a poluição são em locais com população desfavorecida, como Favela da Maré.

Outro caso emblemático de racismo ambiental no país se deu na Cidade dos Meninos, bairro de Duque de Caxias. Em 1950, foi instalada na região, que era ocupada por um complexo

educacional para crianças pobres, uma fábrica de pesticidas pelo Ministério da Educação e Saúde, destinada ao controle de doenças como malária, febre amarela e doença de Chagas, que eram transmitidas por mosquitos. Para isso, se trabalhava com hexaclorociclohexano (HCH), que também é conhecido como “Pó de Broca”, que é suspeito de causar má confirmação congênita, aborto espontâneo e o aparecimento precoce de doenças neurológicas e de alguns tipos de câncer. A partir de 1956, entretanto, passou a ser mais barato importar pesticida do que fabricá-lo, e a fábrica foi desativada, sem que os materiais fossem eliminados de modo apropriado. 40 toneladas de pesticida foram deixadas no local, o que só foi descoberto em 1983, e em relatório sobre a situação, divulgado em 2001, foi recomendado desocupação imediata de toda a região, pois o pesticida havia contaminado a água, as plantações e os animais que ali viviam. Somente a partir de 2013 às famílias começaram a ser removidas pela prefeitura de Duque de Caxias.

 A Constituição Brasileira afirma no artigo 225 que “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”, mas como muitas coisas em nossa “Constituição Cidadã”, o equilíbrio ecológico é um sonho que tem CEP, cor, e classe, e que ainda está distante da igualdade no território nacional, assim como em todo o mundo.

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