Quem vê cara, não vê Corre: Trabalhadores culturais na era da pandemia

Por Bob Oliveira e Carlos Nhanga

Logo no período anterior à pandemia do novo coronavírus, a cultura de rua parecia borbulhar. Novos gêneros, novas festas, novas oportunidades; muita coisa surgia em meio aos eventos que aconteciam pelo Rio. Devido ao isolamento, que já dura quase três meses, várias festas foram canceladas e resta a dúvida: como estão lidando com isso as pessoas envolvidas nesse setor importantíssimo da cultura?

A cultura de rua – sobretudo a suburbana, periférica e favelada – vem há anos lutando para se firmar na cena com identidade e características próprias. Cantores, DJs, produtores, bandas, fotógrafos, cineastas, coletivos, artistas, etc., estão se mobilizando para dar uma nova cara, e uma cara própria, há um meio que sempre foi dominado pelas mesmas caras de sempre. Porém, como é comum na nossa sociedade, num meio em que raça, gênero e classe sempre foram fundamentais para determinar quem ganha e quem perde, a sobrevivência dessa cultura depende da persistência e organização dos seus para se manter de pé.

Para tentar evitar a propagação do novo coronavírus, seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), serviços não essenciais foram fechados e a circulação de pessoas nas ruas foi restringida. Mesmo com a necessidade de atender as recomendações, a falta de um planejamento econômico decente para dar suporte às pessoas fez com que várias delas vissem suas rendas despencarem e ouvissem o desespero batendo na porta. Lançado no início de abril, o auxílio emergencial de R$ 600 – até R$ 1200 para algumas categorias – tinha o objetivo de amparar pessoas com baixa renda familiar durante o período de pandemia, mas esse amparo não chegou a um terço da população que solicitou o auxílio. 

Parte dessa população é de trabalhadores culturais independentes que sempre tiveram que lutar para viver de arte no Brasil. Não bastando as dificuldades que já estavam acostumados a enfrentar, a pandemia – e a negligência do governo federal – mostraram que  algumas situações podem sempre piorar. Se virando como e com o que podem, alguns desses profissionais da cultura falaram sobre suas vidas durante a quarentena.

DJ Laryhill

“Eu nem sei como falar disso sem soar trágico porque de fato me deu uma desanimada real de trabalhar com cultura e produção”: DJ e figurinista de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Larissa Dias – a DJ Laryhill – foi responsável pelo lançamento de um dos novos furdunços do subúrbio carioca: o baile Boladona. O baile, que é um evento de funk dos anos 90s/00s e de outras nostalgias da época, vinha em ascensão, contando com a participação de nomes consagrados do funk do Rio, como Mc Kátia. A escalada de Larissa e da Boladona, no entanto, foi freada pela pandemia.

“Deu uma desanimada real porque em abril, no mês seguinte ao início da quarentena, eu já tinha a nona edição da Boladona toda planejada e eu tinha vários eventos pra fazer. Eu tinha um show do Masego pra fechar no Circo Voador, tinha evento da Boladona com Baile do Amor na Fundição Progresso. Então, tipo, as coisas começaram a piorar bem no auge da carreira”, comentou a DJ e figurinista.

Larissa enxerga o futuro da cena cultural com preocupação, mas vê na internet um caminho para a reafirmação. “Não sei como vai ser o cenário quando isso tudo passar, mas vai ter muita coisa rolando, os pequenos produtores vão ter que trabalhar 10 vezes mais pra trazer público, porque vai ter muita opção de coisa acontecendo. Mas acho que a divulgação na internet pode ajudar muito. O Twitter me ajudou muito nesse lance de divulgação e, quando comecei a ganhar um certo alcance, comecei a ser chamada pra tocar em festas, faculdades, etc. Acho que a internet vai poder salvar a gente depois desse período de pandemia”.

Laryhill, Dj de Duque de Caxias, tocando durante festa. Foto: Reprodução – Instagram

SD9

Vários trabalhadores da cultura urbana foram afetados pela pandemia. Entre eles, está SD9, que, mesmo abalado, ainda se esforça para se manter de pé. “Po, nós tá se virando mano, entendeu? Indo até onde nosso braço alcança. Nosso trabalho tá limitado tá ligado, pai. Um clipe que não dá pra gravar às vezes, as idas ao estúdio diminuíram bastante, entende, mano. Voltamos a trabalhar na raça, como sempre foi”. SD9 é mc de Grime – gênero de música urbana que surgiu nas periferias da Inglaterra – de Bonsucesso, zona norte do Rio. Preocupado com as mudanças que ele e a equipe estão enfrentando durante a pandemia, SD9 falou sobre como isso tem afetado. “Eu e minha equipe tivemos que remanejar datas de lançamentos, tem entrado menos dinheiro do que poderia, tá ligado? Esse ano se não fosse essa pandemia, nós ia tá voando, irmão. Meta ia tá entrando firme, entende? Capital de giro seria muito melhor, mano”.

Mesmo com os apertos causados pela pandemia, SD9 tenta manter o otimismo, mas sem tirar os pés do chão. “Eu procuro ser otimista, irmão, e pensar que vai melhorar. E tomara que aquele ditado de que ‘Deus é brasileiro’ seja real, porque, se não for…nós tá fudido”, finalizou.

Os impactos causados pelo isolamento estão longe de terem afetados somente os trabalhadores culturais do Rio de Janeiro. Por todo o Brasil, trabalhadores da cena estão passando por várias dificuldades, desde financeiras até psicológicas, e descobrindo/criando novos caminhos para lidar com essa situação. A rapper mineira nabru contou sobre sua vida durante a pandemia.

SD9, mc de grime do Rio,  no estúdio. Foto: Reprodução – Twitter

nabru

“Cara, tem sido muito foda porque a rua é o ponto principal das vivências, da troca de experiências, da inspiração, tá ligado? Então, tá sendo foda porque a única coisa que tá me fazendo refletir, é minha convivência comigo mesma. Eu tenho aprendido a conviver comigo sozinha e como produzir sobre isso, mas acho que tenho escrito menos e feito menos paradas por causa da falta desse estímulo de viver a vida real, que é o que movimenta o artista. Tá sendo foda pro processo criativo, mas pra mim mesma tem sido interessante conviver comigo mesma depois de uma vida toda fugindo disso”.

Devido às recomendações de isolamento, nabru teve que cancelar alguns projetos, mas conseguiu se adaptar à nova realidade das redes sociais para continuar produzindo. “Sobre a renda, impactou totalmente porque, tipo, tive vários shows adiados e isso era uma parte significativa da minha renda. Tive que deixar de lado meu álbum, o projeto tá parado e eu não vou conseguir gravar agora por conta do que eu quero fazer, da estrutura que eu quero dar pra esse trampo em específico, mas eu tô pensando em alternativas.” nabru comentou também sobre essas alternativas e os resultados que elas estão gerando. ”Eu percebi que o número de streamings tá aumentando e, mesmo que não seja muita grana, tem dado pra tirar uma graninha, porque as pessoas estão ouvindo mais, etc. Então, acho que quanto mais incentivar as pessoas a usarem as plataformas nesse tempo, melhor vai ser, porque essa é uma das saídas”, concluiu a rapper.

Mesmo com alternativas para lidar com o atual período, a individualidade e particularidade de cada pessoa é algo a ser observado nesse momento. Para a produtora do Brasil Grime Show, Yvie Oliveira, a forma como a vida e a rotina dos artistas foram afetadas também é uma preocupação. 

nabru, rapper de Minas Gerais. Foto: Maiakovski Pinheiro

Yvie Oliveira

“Produzir conteúdos digitais dentro do cenário que temos disponível é uma boa alternativa, mas não funciona da mesma forma porque agora dependemos um pouco mais dos artistas e isso requer retorno, prazos e tudo mais, e nem sempre vai acontecer. Até porque tá todo mundo com a cabeça ‘tonta’ nesse período, depressão por estar impedido de ganhar dinheiro, incerteza do nosso cenário político que não facilita pra nós como cidadãos e nem como trabalhadores do setor da cultura, e por aí vai. Estamos fazendo o máximo possível para que as coisas não parem”. Sobre uma possível previsão do cenário cultural nos próximos meses, Yvie espera uma dura realidade pela frente. “Sinceramente? É imprevisível. Acho que se tivéssemos uma estrutura melhor política poderíamos ter esperança, mas na atual conjuntura estamos apenas tentando não entrar em desespero. Eu particularmente prevejo um cenário muito sombrio daqui pra frente”, finalizou a produtora.

Yvie Oliveira, produtora executiva do Brasil Grime Show.

A realidade dos trabalhadores da cultura no Brasil, sobretudo a suburbana, sempre foi dura. Matar um leão por dia nunca pareceu suficiente para se manter de pé na cena. Apesar de, historicamente, a cultura dos subúrbios e periferias não terem recebido atenção e suporte suficientes do Estado, o atual governo e seus seguidores têm trabalhado dia e noite para atrasar uma caminhada que já era árdua. Mesmo remando contra a maré, jovens por todo o Brasil estão se levantando, seguindo em frente e segurando o rojão, para se tornarem protagonistas das próprias histórias. 

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