Quem tem medo de Marielle?

Um ano após a morte da vereadora, os ataques à sua vida e memória continuam tentando apagar seu legado.

No último dia 14 de março completou um ano da execução da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e de seu motorista Anderson Gomes. Minutos após sair de um evento em que participava na Lapa, no Centro do Rio, um carro emparelhou o veículo onde estava e atiraram contra ele. Marielle foi morta com quatro tiros na cabeça, seu motorista também foi baleado e morto e uma assessora, que também estava no carro, ficou ferida por estilhaços.

O evento do qual Marielle participou foi o debate “Jovens Negras Movendo Estruturas”, na Casa das Pretas, espaço coletivo de mulheres negras. Durante quase duas horas, a vereadora mediou o debate, junto de outras mulheres negras da área de comunicação, sobre questões como ativismo e empreendedorismo. Marielle encerrou o debate com palavras de ordem: “Vamo que vamo, vamo junto ocupar tudo”, disse.

Pouco depois confirmação do assassinato, começaram a explodir na internet especulações sobre o caso e a vida de Marielle. Desde de tentativa de assalto até uma suposta vingança do tráfico, foram várias suposições maldosamente levantadas em torno da morte da vereadora. Boatos envolvendo uma gravidez aos 16 anos, casamento com um traficante e envolvimento com facção criminosa, foram endossados por movimentos políticos, deputados e até uma desembargadora. Não bastava matar o corpo. Para eles, era necessário matar a ideia.

As manifestações em homenagem à Marielle e a cobrança por justiça, no Brasil e no mundo, foram fielmente acompanhadas, durante esse um ano, pelo objetivo de tentar ofuscar o brilho que seu nome traz. Após a vitória da Mangueira, que homenageou Marielle no enredo do carnaval deste ano, o deputado estadual Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente eleito, publicou em rede social uma crítica à agremiação, citando Marielle, pela prisão de seu ex-presidente. Carlos não citou, porém, que o ex-presidente da escola foi eleito deputado estadual pelo seu partido, o PSC.

A memória de Marielle Francisco da Silva virou palco de uma briga entre esquerda e direita, deixando de lado o respeito e a empatia que se deve ter com qualquer vida. Durante o ato no dia 14 em homenagem à vereadora, na Cinelândia, Centro do Rio, pessoas contaram que presenciaram outras bebendo, confraternizando e flertando em meio ao ato que era para celebrar a memória e cobrar justiça pela vida de Marielle. Em uma publicação no portal The Intercept Brasil, Anielle Franco, irmã de Marielle, falou sobre como a dor da sua família foi sufocada pela forma com que o caso estava sendo abordado e como era difícil estar na pele dessa família.

Os últimos minutos de vida de Marielle foram inspirando e plantando esperança no coração de outras mulheres e jovens de que é possível construir um futuro melhor. Sua história não deve ser alvo de ataque e nem virar palanque político. Seu legado de luta pela preservação dos direitos humanos marcaram sua atuação na política e não há esforço apague.

As denúncias sobre os inúmeros abusos das forças policiais contra a população preta nas favelas do Rio não impediam Marielle de ajudar as famílias de policiais que foram vítimas dessa guerra promovida pelo Estado. Marielle Franco é uma mulher ímpar. A sua compreensão e atuação sobre direitos humanos mostram isso. A repercussão internacional da sua execução mostra isso. A sua história de vida mostra isso.

Quem mandou matar Marielle tinha medo da força da sua atuação política e o que ela, enquanto mulher negra, representava. Quem tenta manchar o legado de Marielle tem medo da influência que esse legado tem na vida de outros pretos, pobres e favelados que se inspiram nela para exigir seus direitos que sempre foram negados. Quem tem medo de Marielle teme que ela continue presente. E ela continuará.

Texto: Carlos Alberto Nhanga

Edição: Guilherme Rodrigues

Arte: Narciso Spovith

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