Quem é, cria!

 A independência de narrativas movimenta a comunicação periférica e acende a questão de diversidades nas mídias tradicionais

As narrativas de violência e medo, vinculadas às periferias, ainda são grande parcela dos conteúdos veiculados nas principais mídias de TV, rádio e dos maiores jornais. Porém, há um processo de novas narrativas na mídia independente de favelados e suburbanos, além de uma abertura de espaço para indivíduos pretos e de origem pobre nas mídias tradicionais. Há uma transformação de alguns paradigmas, mesmo que iniciais, do controle midiático das grandes emissoras.

“Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes. Se isso é sobre vivência, me resumir a sobrevivência é roubar o pouco de bom que vivi”. A música ‘AmarElo’, de Emicida, revela um caminho em contrapartida às imagens estigmatizadas da periferia e também uma abertura às narrativas contadas pelos próprios. As iniciativas de comunicação abrem um olhar para entender que periferia é criatividade, inovação, estética, trabalho, memória e muito mais. A atuação de mídias independentes periféricas, em destaque jornais impressos e digitais, podcasts, trabalhos de cineastas e fotógrafos, aparecem para assentar uma cultura de ‘nós pra nós’, dos corres nas ruas, nas favelas e do subúrbio. Jornais que produzem e criam narrativas para dentro da favela, como o jornal Fala Roça, da Rocinha, nascido em 2012 a partir da iniciativa da ‘Agência de Redes Para Juventude’ para potencializar jovens, são essenciais para seus territórios. O Fala Roça faz um trabalho voluntário e é uma das grandes referências em comunicação comunitária, mas desde o mês passado pede colaboração em doações para continuar a existir. Segundo a coordenadora executiva do Jornal, Michele Silva, a colaboração não é apenas pela questão financeira, mas para que a comunidade tenha uma causa para defender.

“A gente se formalizou, hoje o Fala Roça é uma associação de comunicação comunitária. Apto a fechar contratos de prestações mesmo. A gente tem um papel de cria para ser executado na Rocinha. E ali a gente é conhecido, tem confiança das pessoas”, declarou ela. O Jornal tem um direcionamento para os moradores nordestinos da comunidade. “O Fala Roça trabalha a identidade e a representatividade na Rocinha. É uma maneira dos moradores enxergarem a presença deles nesse lugar de outra forma. Quando você leva informação de qualidade, produzida lá dentro, sobre a própria comunidade, pelos aspectos positivos, isso muda a cabeça do nosso público. Porque, quando eu abro a porta da minha casa, eu vejo coisas boas também”, conta ela.

Foto: Reprodução

Para Michele, a busca de funcionalidade dos jornalistas periféricos em grandes mídias, que ocorre em resposta para maior diversidade, é controversa. “Os comunicadores comunitários estão sendo absorvidos pela grande mídia, mas não sei se a grande mídia quer a nossa diversidade ou só que a gente seja cota ali. Carregar o papel de levar as pautas de violência, racismo, favela. Então, não gostaria de ser colocada numa caixinha. Quando me perguntam se devem ir para a grande mídia, eu digo: vá! Para ganhar repertório, para você mostrar narrativas, se apoderar das ferramentas. E todos precisam de sustento também, é claro”, finalizou.

O ponto de enfrentamento ao espaço de pessoas negras e de origem pobre no escalão mais alto das empresas de comunicação choca com a inclusão empresarial, por questões de diversidade, e dados de crescimento econômico. Redações de jornais mais humanas e inclusivas impulsionam a sociedade e a democracia. Porém, quando há um protagonismo de profissionais negros, a contrapartida indireta, como exemplificam as opiniões e os boicotes internos contra o início de Maju Coutinho no Jornal Hoje, da Globo, é um racismo velado.

Foto da equipe de jornalismo do Jornal Hoje / Reprodução

A imagem de Maju com a equipe do Jornal Hoje completamente branca, o texto especial do The Intercept e o relato de Yasmin Santos no texto sobre a festa da equipe da revista Piauí, mostram os percalços vividos pela inclusão de pessoas pretas na grande mídia. Mesmo depois da tão falada – e necessária – inclusão, a manutenção nesses lugares passa por ter que enfrentar outras faces do racismo sistêmico que toma conta da esfera empresarial no país.

O trabalho de fomento às potencialidades em coletivos periféricos formam indivíduos para o domínio das ferramentas e da linguagem do poder midiático. O Gato Mídia, por exemplo, do Complexo do Alemão, fundado por Thamyra Thâmara, é uma rede de mídia e tecnologia para jovens negros e de locais populares que acolhe e cria novas narrativas. A partir do Gato Mídia e do ‘Coletivo Papo Reto’, de Raull Santiago, e entre outros coletivos, foi lançado o filme ‘Descolonize o olhar’. Curta que revela potências e complexidades de quem vive em comunidade, por meio da perspectiva de Bira Carvalho, cadeirante desde os 21 anos. O filme foi assistido na ONU no mês passado.

Os atalhos de uma nova narrativa chegam ainda na inclusão imagética e nas teses sofisticadas da vida periférica: no cinema, com Emílio Domingos, dos longas etnográficos  ‘A Batalha do Passinho’ (2012), sobre o movimento cultural de dança funk,  e ‘Deixa na Régua’ (2016), sobre a estética periférica; e de Yasmin Thayná, com a experiência de memória afetiva no documentário ‘Fartura’ (2019); nas discussões em bases históricas, antropológicas e de botequim do professor Luiz Antônio Simas, com aulas públicas, com o livro sobre o poder das ruas, chamado ‘O corpo encantado das ruas’ (2019), e também seu podcast, junto com a jornalista Gabriela Moreira, sobre histórias que permeiam as ruas, chamado ‘Encruzilhadas’; e, finalmente, o projeto sobre a mudança na visão estereotipada sobre a favela através de imagens: o Favelagrafia, idealizado pela empresa de publicidade NBS Rio+Rio. As fotografias de nove jovens moradores de nove favelas do Rio de Janeiro estão expostas no Museu de Arte Moderna (MAM), no Flamengo. Já é o segunda ano que o Favelagrafia está exposto no MAM.

A fotógrafa Josiane Santana, que participa do Projeto desde 2016, traz a arte e os territórios potentes do Complexo do Alemão, local onde mora, neste Favelagrafia 2.0. “Essa segunda edição da exposição do Favelagrafia é mais voltado para as potências da favela. Para as pessoas, para os talentos”, afirma ela. Josiane é uma fotógrafa independente e afirma que a consciência social de empresas gigantes são, na maioria das vezes, de autopromoção. “A busca de diversidade das grandes empresas é balela. Acho que as empresas utilizam do momento, das temáticas, lutas sociais para incorporarem no meio disso. E dizer ‘estamos junto com vocês e a gente também quer se inserir’. Mas, às vezes, é interesse para a imagem da própria empresa. Aos poucos a gente vai mudando essa situação. Cada vez mais quero ver a gente saindo do operacional de grandes empresas para a gerência. E aí as coisas vão mudar de figura”, finalizou.

Foto: Josiane Santana

O trabalho em rede de mídias periféricas, suburbanas e de seus jornalistas e comunicadores independentes, são de extrema necessidade para estabelecer uma mídia verdadeiramente democrática em que os grandes poderes não determinem sobre quem, onde e o que pode se tornar público. A valorização, o apoio e incentivo do trabalho desses jovens que estão tentando tomar o que é seu por direito, remando contra a maré, podem contribuir para um futuro mais independente, sem amarras. Não existe mídia democrática sem a participação da favela, do subúrbio, do povo. 

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