Quando o horror vira cotidiano

No dia 19 de junho, o Brasil atingiu a marca de meio milhão de mortos pela COVID-19, uma doença evitável e para a qual já há vacina. A maioria dessas mortes ocorreu somente nos 6 primeiros meses de 2021, com 2020 se encerrando com quase 200 mil mortos. Apesar dos esforços do governo Federal, a vacinação prossegue, tornando a luz ao fim do túnel cada vez mais possível, mas, devido aos esforços desse mesmo governo, a situação segue horrorosa. Se ano passado mil mortes por dia se tornaram a norma, agora dois mil mortos são parte da rotina, um aviso como outro qualquer no seu jornal noturno de preferência.

As coisas definitivamente estão piores, mas se no início disso tudo, a mensagem de “Fique em Casa” era ecoada por vários lugares e, na medida do possível, acatada, com várias pessoas se preocupando em sair o mínimo possível, as redes sociais tomadas pelo choque do número crescente de mortos, agora as coisas estão… bem, “normais”. Não me refiro aos negacionistas, ou aqueles que aglomeravam desde o ínicio, mas sim as pessoas que se isolaram, sabem dos cuidados que devem ser tomados, e até seguem se cuidando, mas se aquela saída ao bar antes era impensável, aos poucos ela volta a ser considerada. Pessoas como, por exemplo, eu.

Meu início de pandemia foi marcado pela ansiedade constante da possibilidade de ter que pegar o transporte público, devido ao trabalho que tinha na época, na única vez que isso aconteceu, tive crise de ansiedade, que resultou em um banheiro de trabalho vomitado e meu retorno imediato para casa, de onde não sai por uns bons meses. Sempre que minha mãe retornava de casa do trabalho dela, uma muda de roupas limpas a aguardava do lado de fora. Mas com os meses, esses cuidados foram saindo de cena, assim como a minha ansiedade, próximo ao final do ano, pegar transporte público lotado era acompanhado da irritação de sempre, não do medo de um vírus mortal, e as saídas de casa, antes somente em situações essenciais, agora são mais frequentes, a mesa de bar não é uma memória distante, mas novamente um ambiente onde me vejo com certa frequência.

Claro que sei dos perigos envolvidos, sei que não é seguro, mas é como se os sinais de perigo não fossem o bastante para me fazer frear esse comportamento mais, como se toda minha tensão tivesse sido gasta no início disso. Não estou sozinho nesse sentimento. “Eu não me sinto confortável saindo com frequência ainda, mas é preciso” diz Gyan Carlos, estudante de marketing de 24 anos, “me coloquei em quarentena antes mesmo de se tornar oficial, e segui por meses assim”. Uma das dificuldades em manter esse comportamento se deu, em parte, por causa da família e dos relatos constantes de conhecidos que saiam normalmente, “só eu ficar dentro de casa não ia adiantar muito, além de não fazer bem, quase um ano dentro de casa só ouvindo falar de morte e do governo não fazendo o que deveria, não há psicológico que resista”.

“Se você fica em casa por meses e o número de mortes não diminui, qual a diferença?” declara a psicóloga Vitória Regina, coordenadora do Núcleo de Campo Grande da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO), “em abril desse ano, chegamos a perder quase 4 mil pessoas em 24 horas, da mesma forma que isso choca, também acaba naturalizando, ligamos a TV sabendo que mais mil pessoas morreram no país e que o governo federal nada faz para diminuir esse número, muito pelo contrário.” Como esse cenário virou rotina, isso pode explicar o motivo das pessoas voltarem a viver a vida normalmente, apesar da pandemia, de acordo com Vitória, “conversei com algumas pessoas que estão saindo, a maioria me disse que sabe que não é certo, mas que a vida precisa seguir, então é difícil”.

Vitória aponta também a perspectiva do luto, muitas pessoas se cuidaram em prol de outra pessoa, um parente com comorbidade ou idoso, mas que acabaram falecendo do mesmo jeito, diante disso, “você fica tão destruído por dentro que parece que não há mais nada ali e tampouco algo que pode te deixar impactado”.

É preciso apontar também o papel da mídia nesse cenário de apatia que se instala, com os boletins diários de mortos ocupando o mesmo espaço nos jornais que dicas de turismo. Fora dos marcos numéricos de 400 ou 500 mil mortos, que ganham evidente destaque, com críticas rasas ao governo que ajudou eleger, o Jornal Nacional diminuiu a sua cobertura em relação à Pandemia, em agosto do ano passado, o colunista do UOL Mauricio Stycer observou que o tempo dedicado a situação pandêmica reduziu consideravelmente. “O telejornal, com duração total de 56 minutos, dedicou apenas 10 minutos a notícias relacionadas à covid-19. Há uma semana, reportagens sobre a pandemia ocuparam 30 minutos do total de 55 da edição do JN”. O programa “Combate ao Coronavírus” durou 5 meses na grade da emissora, que foi encerrado devido a baixa audiência.

Mas se vivemos nessa situação em que a mortandade virou rotina, estamos nela devido a inação do governo federal, capitaneado por Jair Bolsonaro e cuja retórica genocida é espalhada por outros membros do seu covil, como Osmar Terra, Alexandre Garcia e afins, “não tem como exigir que indivíduos arquem com uma responsabilidade do presidente e dos ministros da saúde”, lembra Vitória. Não que precisemos “passar pano” para aqueles que se aglomeram em boates e afins, mas há de se compreender aqueles que, após meses de cuidado, decidiram pensar um pouco em si e buscar um pouco de conforto nesse inferno brasileiro.

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