Qual o valor de um debate?

Há mais ou menos 5 anos, o apresentador de talk show americano Jimmy Kimmel abriu seu programa com uma pequena anedota. Após levar ao ar, em um episódio prévio, um aviso sobre a importância das vacinas, ele recebeu diversas mensagens de pessoas anti-vacinas, alegando, entre outras coisas, que ele deveria apresentar o “outro lado da história”, e levar pessoas anti-vacinas para falar no programa, ao que Kimmel respondeu: “é claro que eu não vou fazer isso, pelo mesmo motivo que eu não colocaria em debate se um grupo de pessoas acreditasse que panquecas fazem você virar gay, elas não fazem isso, isso não é um debate”. Jimmy Kimmel não é jornalista, seu programa tem função de entreter, não de informar. Mas nesse momento, em 2015, ele revelou ser muito mais responsável do que boa parte da grande mídia brasileira no ano de 2020, justamente no momento onde ter a informação correta é motivo de sobrevivência, para o devido enfrentamento do novo coronavírus.

O deputado Osmar Terra teve um ano tanto agitado. Médico e deputado pelo MDB, tem sido uma das principais figuras a contestar a eficácia das medidas de isolamento social contra o novo coronavírus e, por consequência, uma das maiores fontes de conhecimento para os bolsonaristas. Existe um pequeno porém: Terra, em absolutamente nenhuma frase, declaração, tweet ou reflexão, esteve correto sobre qualquer coisa que tenha dito sobre o enfrentamento do coronavírus. No dia 14 de abril, por exemplo, disse em áudio para Flávio Bolsonaro  que o coronavírus estava “despencando, é momento de comemorar”. Pouco mais de um mês depois dessa declaração, o Brasil tem mais de 300.000 mil casos confirmados de covid-19 e mais de 20 mil mortos. Esse é um momento, de diversos outros, em que Terra esteve errado.

Mesmo após dar diversas previsões furadas, Osmar Terra, ao invés de ser compreensivelmente ignorado pela mídia, foi convidado para três programas diferentes falar sobre suas ideias, que, novamente, não têm uma linha de base em realidade. Osmar Terra debateu com: Geraldo Alckmin, Luiz Mandetta e Alexandre Padilha, todos políticos e médicos, como Terra, mas como o jornalista João Filho apontou em sua matéria no Intercept: “Enquanto os petistas, o tucano e o pefelista defenderam a ciência e a recomendações da OMS, o médico bolsonarista propagou mentiras.” É como se um jogador de futebol, que nunca fez gol ou realizou um passe correto em toda sua carreira, fosse convocado para jogar na seleção. Em uma entrevista para rádio Gaúcha, Terra até foi desmascarado, mas em outras situações, suas ideias incorretas foram colocadas no mesmo nível que medidas concretas e com eficácia comprovada. Perdão o linguajar, mas que porra é essa?

Dar espaço para quem já demonstrou estar incorreto ou simplesmente não saber o que fala se tornou quase um modus operandi da mídia. Qual outro motivo para uma figura que sempre possui falas rasas e com o agravante de não ter nenhuma espécie da qualificação relevante como Caio Miranda, mais conhecido como Coppola, ter a ascensão que teve? Coppola surgiu, como tantas outras figuras conservadoras, no Youtube, lá em 2016 onde falava suas “verdades inconvenientes”, um termo muito precioso para a direita. A tática era a mesma de sempre, dados sem contexto, meias verdades, etc. Mas, como toda empreitada anti-esquerda, teve sucesso e logo o YouTuber virou radialista na Jovem Pan. E foi mais bem sucedido ainda, “arrasando” figuras como Ciro Gomes e Greenwald, mesmo que na prática, seus argumentos pouco diferissem das correntes de whatsapp bolsonaristas. Hoje tem destaque na CNN no programa O Grande Debate, inicialmente ao lado a advogada Gabriela Prioli, que mal conseguia disfarçar o riso ao ouvir os argumentos do seu colega de estúdio. O desempenho de Coppola foi tão pífio diante de alguém que, além de argumentos, possuía boa retórica, que ele se retirou do programa, só retornando após a saída de Prioli.

Não que tenha adiantado muita coisa, pois agora, além de ser corrigido pelo seu oponente, a própria emissora e a mediadora do programa, Monalisa Perrone, interrompem o conservador em seus discursos para corrigi-los. Ele e Osmar Terra trabalham de modo muito similar, distorcendo dados e trabalhando com meias verdades, envoltos em boa retórica, que torna o trabalho de desmenti-los mais díficil do que se espera. Há uma certa ideia de que falsidades são fáceis de serem apontadas. Nem sempre é o caso. 

Essas táticas não são novas e a extrema direita as usa já tem algum tempo. Deborah Lipstadt, uma historiadora americana, descreveu em seu livro Negando o Holocausto, uma situação muito semelhante a que estamos vivendo quando lidou com negacionistas do Holocausto. Muito das defesas desse grupo envolviam falas como “ouvir o outro lado” ou “deixar as pessoas pensarem por conta própria”, mas seus discursos eram “verdade misturada com mentiras absolutas, confundindo leitores não familiarizados com as táticas dos negacionistas. Meias verdades e pedaços de história, que convenientemente se esquivam de informações críticas, deixando o ouvinte com uma versão distorcida do que aconteceu”. A historiadora frequentemente se recusava a participar de debates diretos com negacionistas, uma situação onde só eles teriam a ganhar.

Figuras de direita sempre buscam sua legitimidade por meio de “debates” e confrontos intelectuais. Um debate é, realmente, uma ótima ferramenta de investigação filósofica, porém foi instrumentalizado para servir de publicidade, e a mídia brasileira aceita de muito bom grado. Um ótimo exemplo dessa instrumentalização está em 2018, quando a filósofa Marcia Tiburi foi surpreendida durante uma entrevista para rádio Guaíba com a presença de Kim Kataguiri, para um “debate”. Tiburi não havia sido avisada dessa situação, e corretamente se retirou, e grupos de direita venderam a situação como a filósofa “fugindo” do confronto de ideias.

Um debate é, realmente, uma ótima ferramenta para propor novas reflexões e colocar ideias em crise. Mas para isso é necessário que as duas partes estejam agindo de boa fé e de um interesse genuíno em informar. Isso cai por terra quando estamos lidando com uma ideologia que se baseia em distorções e notícias falsas,e que usa do diálogo como ferramenta para conseguir seu momento de “mitar” e espalhar o vídeo pelas redes, ao invés de gerar reflexão, o realidade.

A presença de Coppola nos canais que participa faz todo o sentido: Tanto Jovem Pan quanto CNN são veículos mais explicitamente alinhados ideologicamente com o atual governo, mas qual o motivo de Osmar Terra ter espaço em veículos que, ao menos superficialmente, se opõem ao conservadorismo negacionista?

Se for pra gerar polêmica, a mídia fracassa intencionalmente em sua missão de informar. Se é baseado na crença de sempre “mostrar os dois lados”, então fracassa por pura ingenuidade. De todo jeito, é necessário repensar a questão do debate, em tempos que figuras públicas usam abertamente da mentira para se promover, qual o sentido de colocá-los no mesmo palco da honestidade?

Arte de Capa: Narciso Spovith

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