Precisamos falar sobre a Eco Ansiedade

Nossos ancestrais nos deixaram um grande fardo: diminuir o impacto dos danos causados ao meio ambiente, mas isso está nos deixando ansiosos.

No momento da escrita desse texto, os impactos do rompimento da barragem de
Brumadinho se fazem sentir. Um trecho de 300 quilômetros do Rio Paraopeba foi considerado
morto, e o número de mortos chega a 182. Impossível não pensar no que ocorreu em Mariana, três anos atrás, que não só tirou vidas, mas também matou o Rio Doce, resultando em um dano para todo ecossistema incalculável e irreversível.

Mas é claro, os acontecimentos de Brumadinho não existem de modo isolado. A tragédia é fruto de uma sistemática indiferença em relação ao meio ambiente, e são reflexos de um processo contínuo. Essas calamidades chamam mais atenção para o problema, mas atualmente, nós vivemos em um eterno estado de calamidade ambiental. O calor já está se tornando insuportável, e vai piorar, assim como a qualidade do ar, que já é bem ruim em certos pontos do planeta.

Se hoje uma das principais causas da imigração são as guerras, não vai demorar muito até que grandes populações se desloquem para outros países devido aos problemas ambientais, já que o risco de cidades inteiras ficarem inundadas permanentemente é real. No Rio de Janeiro, por exemplo, lugares como Copacabana e Barra da Tijuca ficarão embaixo d’água caso a temperatura global aumente três graus. Milhões de pessoas perderiam suas casas e outras milhões ficariam sem ter onde trabalhar. Como calcular o impacto social e econômico de algo dessa magnitude, em escala global?

Todas essas questões acabam resultando também em um grande peso psicológico. Afinal, não temos ninguém além de nós mesmos para culpar pela iminente ruína do planeta. Como ter paz de espírito ao pensar que a geração que nasce agora viverá em um mundo que simplesmente pode não ter como sustentá-los?

Está na hora de começarmos a pensar na “Eco Ansiedade”, no desgaste mental ocasionado pela constante sensação de que é tarde demais para solucionar o problema, além do impacto psicológico causado pelas próprias tragédias.

De imediato, quando escutamos falar em desastres, pensamos nas vidas perdidas e no estrago causado, mas pouco no estado mental dos sobreviventes após os eventos. Susan Clayton, professora de psicologia na Faculdade de Woster, escreveu sobre os danos causados à saúde mental por motivos ambientais para a Organização de Psicologia Americana. No artigo “Saúde Mental e Mudanças Climáticas”, Clayton diz que “os impactos do clima na saúde mental não são relegados apenas a desastres. Há também impactos significativos na saúde mental de mudanças climáticas de longo prazo. Mudanças no clima afetam a agricultura, a infraestrutura e a habitabilidade, que por sua vez afetam as ocupações e a qualidade de vida e podem forçar as pessoas a migrar. Estes efeitos podem levar à perda de identidade pessoal e profissional, perda de estruturas de apoio social, perda de um senso de controle e autonomia e outros impactos na saúde mental, tais como sentimentos de desamparo, medo e fatalismo.”

O filme First Reformed tem como uma de suas temáticas justamente essa “eco ansiedade”, já que um de seus personagens, Michael, entra em uma depressão intensa devido a sua preocupação ambiental, somado à sua inquietação religiosa. “Pode Deus nos perdoar pelo que fizemos com o mundo?” pergunta para Toller, que não obtém resposta que o agrade.

Como encontrar alento em um mundo moribundo, cujo aqueles que têm o poder de reverter a situação negam a perversa realidade que se apresenta, e que em alguns casos, até mesmo ajudaram a construir? Estranho é não se sentir desolado diante o cenário que se apresenta.

Entretanto, não podemos deixar o temor nos paralisar. Além disso, devemos tomar pequenas medidas em nosso cotidiano para mitigar o impacto que causamos à natureza, além de participar de ações que incentivem a consciência ambiental. Nossa geração pode não reverter totalmente o estrago, mas podemos fazer com que o cenário seja mais positivo para as futuras gerações. Pode não ser o bastante, mas ao menos poderemos dizer que fizemos a nossa parte.

Texto: Guilherme Rodrigues

Edição: Marianna Garcia e Carlos Alberto Nhanga

Arte: Narciso Spovith

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