A luta que é preparar-se para a Universidade em um ano pandêmico

A realidade do ensino remoto para estudantes de pré-vestibulares sociais e o excludente Enem 2020.

Mudanças são necessárias para a evolução do ser político e da sociedade como um todo – mas elas devem ser naturais. O fato é que, com a pandemia do coronavírus e o decreto de isolamento social, o desencaixe de situações já estabelecidas foi extremamente brusco e estabeleceu o que, agora, chamamos de “o novo normal”. E “o novo normal” na educação é o ensino remoto.

Com a instauração dessa nova modalidade de ensino como única maneira viável de dar continuidade à formação dos estudantes, diversos problemas foram escancarados: falta de equipamentos básicos para acesso às aulas, internet precária ou ausência da mesma e falta de um espaço adequado para os estudos, com infraestrutura necessária que permita concentração. A escassez de ferramentas tecnológicas afeta 30% das casas no Brasil – e essa é uma porcentagem extremamente significativa, que expõe muito bem a desigualdade de oportunidades em nossa pirâmide social.

Até que instituições de ensino se adaptassem a tantas novidades, muita água rolou por debaixo da ponte. Cursos de capacitação para professores que não dominavam o aparato eletrônico, disponibilização de computadores com bom acesso à internet em escolas para que os alunos não interrompam sua formação e o início de um debate mais acalorado sobre a importância do ensino híbrido são alguns tópicos que integram a lista de modificações no cenário da educação brasileira.

Até mesmo o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), principal e mais concorrido meio de ingresso ao ensino superior do país, teve que ser reformulado: sua data, originalmente definida para novembro de 2020, foi adiada para os dias 17 e 24 de janeiro de 2021, depois de uma imensa mobilização de entidades estudantis e da classe artística e política, denominada #AdiaEnem. Ainda assim, profissionais da educação e a União Nacional dos Estudantes (UNE) defendem que este adiamento é insuficiente, pois é clara a desvantagem de estudantes que não possuem acesso a mecanismos de estudos online, principalmente num momento de isolamento social, e a falta de perspectiva para o retorno das atividades presenciais. Alguns defendem, ainda, o cancelamento do exame. “Ninguém quer que o exame seja adiado indefinidamente, mas também não pode ser por um tempo insuficiente que signifique apenas uma chance para o governo criar uma sensação de solução e tirar o problema de suas mãos”, sinalizou Iago Montalvão, presidente da UNE.

É sobre este assunto que o texto se debruça: como está sendo a rotina de estudos de quem sonhava em ingressar na universidade?

No Rio de Janeiro existem diversas iniciativas brilhantes de pré-vestibulares sociais que atendem, em sua maioria, alunos de regiões periféricas, onde não existem grandes incentivos governamentais à cultura e educação. São professores que, por acreditarem no poder transformador do conhecimento e na necessidade de dar oportunidades a quem tudo foi negado, constroem espaços de aprendizagem para a comunidade e possibilitam que essas pessoas estejam, futuramente, em uma graduação.

Conversamos com três professores que estão enfrentando as dificuldades cotidianas do ensino remoto: Allana Accioly (prevestibular_machadodeassis), Fernanda Lacombe (maisnosoficial) e Leonardo Amatuzzi (pvs.cefet).

Qual o perfil do seu alunado?

Leonardo: Em geral, os alunos do PVS-CEFET são jovens de baixa renda e oriundos de escolas públicas. Há, claro, pessoas oriundas do próprio CEFET que, em geral, possuem mais condições financeiras e também alunos que estão retomando a vida escolar após anos de formação no Ensino Médio. Porém, é possível dizer que a grande maioria são mesmo jovens de baixa renda.

Fernanda: O + Nós é um pré-vestibular voltado para as pessoas que tem dificuldade de se inserir ou concluir o ensino formal. Ou seja, nossa preocupação é possibilitar o acesso à universidade de negros e negras, mulheres e LGBT, principalmente das periferias e favelas.

Allana: A maior parte são de jovens que estão cursando o 3° ano do Ensino Médio ou que acabaram de concluí-lo. Temos alguns alunos mais velhos, na casa dos 30 anos, também. No grosso, são alunos do Morro da Providência e do Morro do Pinto, ou seja, do entorno de onde se situa o pré.

Quais as maiores demandas desses alunos? O que faz com que eles estejam em um pré-vestibular? É uma tentativa de mudar sua realidade?

Leonardo: As maiores demandas desses alunos são por estrutura escolar para que consigam desenvolver as habilidades que eles possuem. Esses jovens estão interessados em entrar numa universidade pública justamente para que tenham acesso aos meios de desenvolvimento que as universidades brasileiras disponibilizam. Todos ali apostam no reconhecimento da qualidade dessas universidades para alterar radicalmente a realidade de suas vidas. Muitos contam que pretendem ser os primeiros de suas famílias com Ensino Superior.

Em decorrência do coronavírus, você manteve suas aulas em ensino remoto? Se sim, em linhas gerais, como você tem percebido essa mudança brusca?

Leonardo: Estamos tentando manter as aulas de maneira remota, com a disponibilidade de horários para aulas online. Tais aulas, entretanto, parecem ser de difícil adaptação por parte de professores e alunos. Isso ocorre, em minha opinião, por conta de mudança radical do ambiente de estudos. Além disso,  é claro, também tem influência nessa dificuldade a baixa qualidade das bandas de internet que temos por aqui. O acesso às aulas é desigual e o funcionamento da internet é precário de uma forma geral. O resultado são aulas com 4/5 alunos numa turma que geralmente tinham 40 pessoas.

Allana: Nós, infelizmente, não temos o ensino remoto. Estamos tentando começar aulas online no mês que vem. Isso acontece porque não temos estrutura para esse tipo de aula, pois não é um pré-vestibular com muitos recursos – tentamos, no início da pandemia, mas não rolou. O que fazemos é mandar listas, textos e tirar dúvidas por WhatsApp mesmo.

Qual a maior dificuldade enfrentada por seus alunos para assistirem/participarem dessas aulas?

Fernanda: Eu apontaria dois tipos de dificuldades principais. O primeiro tem a ver com a falta de espaço para estudo em casa. Muitos alunos vivem em casas pequenas, de poucos cômodos, dividem quarto com algum membro da família. Os que têm computador em casa, geralmente tem na sala ou outro cômodo compartilhado ao longo do dia, sendo que grande maioria conta com o celular para acompanhar as aulas. E aí entramos no segundo problema: mesmo os que tem Wi-Fi em casa, volta e meia tem problemas de conexão. Pouquíssimos tem um plano de celular que permite assistir aulas por ele, sem Wi-Fi. E com essas dificuldades, lidamos com um problema que é constante nos cursinhos populares: a evasão dos alunos.

Existem alunos que não estão acompanhando esse ensino remoto por não disporem de equipamentos e/ou internet?

Leonardo: Existem. Porém, a maioria dos que não conseguem acompanhar relatam que o problema está na falta de pacote de internet para gastar conectado nas plataformas de aulas online.

Você consegue projetar alguma solução para a defasagem que, invariavelmente, está acometendo esses estudantes?

Fernanda: Eu acho que essa é uma defasagem que soma com as que já existiam. Em termos práticos, tanto professores quanto alunos correm atrás para suprir as lacunas no aprendizado e vão dar o seu melhor para suprir as que surgiram esse ano. Agora, quando falamos de solução para essa desigualdade, isso passa por entender que o sucateamento da educação pública, a desigualdade social, a criminalização da juventude negra, o genocídio de negros, mulheres (principalmente as negras) e LGBTs, é um projeto. O papel daqueles que pretendem solucionar as defasagens da educação é derrubar esse projeto.

Allana: Sendo sincera, acho que não existe solução para essa defasagem. E isso não é só por consequência do coronavírus, a gente já lida com defasagem no ensino público, é estrutural. O sucateamento vem de anos e anos. O coronavírus só escancarou essa desigualdade. A solução para isso é uma educação de base pública de qualidade e tudo que advém disso. O aluno precisa ter minimamente uma base para que ele compreenda, primeiramente, o que é ensino remoto, e como se organizar para tal.

Qual o seu posicionamento a respeito do Enem digital, nova modalidade do exame apresentada como opção para o ano de 2020?

Allana: ENEM digital, para mim, é o conceito de exclusão. Quando a gente fala de Rio de Janeiro, já é um cenário de desigualdade muito grande, mas o ENEM é nacional, e sabemos bem que o cenário é ainda pior em outras regiões do país. Como você coloca um aluno para fazer a prova mais importante da vida dele usando um método que ele nunca viu na vida? As escolas públicas ou pré-vestibulares comunitários, onde esses alunos estudam, não dispõe de tecnologia para aprimorar a experiência do alunado. Para o aluno da rede privada, que dispõe de todas as ferramentas, o ENEM digital não é nada ameaçador. Para o aluno da rede pública, sim.

O adiamento do exame para janeiro de 2021 resolve o impasse que a pandemia gerou?

Fernanda: Não resolve, porque ele parte do entendimento de que a única dificuldade que existiu para a maior parte dos estudantes foi um certo atraso nos estudos, quando os efeitos foram além: falta de espaço para o estudo, falta de acesso ao conteúdo, falta de motivação, falta de tempo, só para citar alguns. As desigualdades sociais, que refletem diretamente na dedicação que cada um dá para a sua formação, estão muito acentuadas. A vida das pessoas mudou, para a grande maioria, para muito pior. As consequências disso não se resolvem com 60 dias de adiamento do ENEM, principalmente quando o Governo Federal não move um dedo para solucionar esse aprofundamento de desigualdades – pelo contrário, as aprofunda.

Qual a solução: cancelar ou adiar ainda mais?

Leonardo: Levando em conta o quanto a entrada na universidade representa uma possibilidade real de mudança na vida dessas pessoas, acho que cancelar a prova seria uma tragédia enorme. Defendo que haja o adiamento do ENEM pelo tempo que for necessário, depois adequamos o calendário, mas cancelar representaria decretar que essas pessoas teriam necessariamente que esperar mais um ano inteiro para mudar suas vidas.

Fernanda: Eu acho que, de novo, entramos no ponto de que a solução, no caso da educação, não passa por remediar as consequências, mais acabar com um projeto de educação que é voltada para acentuar a desigualdade social. É frustrante escrever isso e deve ser muito frustrante para quem lê também, porque só lembra o quanto ainda temos desafios pela frente e o quanto o caminho a ser percorrido é longo. Eu tenho dúvidas com relação ao cancelamento, assim como tenho dúvidas com relação ao adiamento, porque sinto que em ambos os casos estamos tentando tapar o sol com a peneira, correr atrás de suprir aquelas lacunas que falei nas outras perguntas, numa competição que se tornou ainda mais desigual e injusta.

Allana: A solução, para mim, seria cancelar. A partir do momento que a gente não sabe quando tudo isso vai acabar, quando poderemos voltar à ativa, quando meus alunos vão se sentir seguros para a prova, quando a nossa economia vai conseguir sustentar a realização desse vestibular e a entrada de novos alunos nas universidades públicas, não faz sentido adiar. Enquanto não houver essas informações, estaremos tampando o sol com a peneira.

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