Papai Noel nunca me deu nada

Nesse Natal não tenho escapatória – vou trabalhar como Papai Noel de shopping. Particularmente acho incrivelmente chato ficar sentado o dia inteiro num cenário cheio de bichos de presépio tudo torto, mas o Natal precisa acontecer e eu preciso colocar dinheiro no bolso. Fico feliz que, pelo menos, vou estar no Madureira Shopping, que é o verdadeiro lugar de gente feliz.

Sabe qual a parada? Desde o ano passado a gente só se fode, as coisas ficam cada vez mais obscuras, mais caras, mais tristes, mais degradantes. Importante demais relembrar sempre que, nesse ano, nós estamos acompanhando mercados vendendo osso com restos de carne a preço de quilo de miúdo de frango. E amontoados de pessoas desesperadas pra pegar de graça esses restos porque nem ossos conseguem comprar. Sinceramente, como comemorar o Natal num cenário desses? Não parece egoísta demais?

Assumo que, pela primeira vez, o Noel aqui tá desanimado. Desinteressado, desgostoso da vida. Mesmo sabendo da importância do meu trabalho, do amor todo que recebo das minhas crianças e, principalmente, da força e união que essa data carrega. É quase impossível estar inteiro depois de dois anos sendo podado aos poucos. É difícil ver uma saída e o único caminho parece ser prostrar-se e aceitar esse imenso amargor, essa luta interminável.

De qualquer forma, o Natal do Claudin não vai acabar. Mas ele vai começar aqui, em Madu, sentado do lado dessa rena desbotada, feia pra caramba.

Alá, mãe, papai Noel pretinho! – disse um pretinho mirim passando em frente ao cercadinho tomando um copão de açaí, com duas sacolas da Di Santinni nas mãos.

— Vem, meu filho, vamo tirar uma foto! – gritei feliz pois meu único momento de felicidade genuína nesse ambiente era quando os pequenos vinham falar comigo e, infelizmente, não existia uma quantidade suficiente de crianças para preencher minhas 8 horas diárias no shopping.

Ih, tio, maneirinho tu, pretinho e magrelão – rindo a beça de mim. — nunca vi papai Noel assim. – E antes que eu pudesse dizer algo… — na verdade eu nunca vi Papel Noel, , não existe mesmo.

— Bota a máscara primeiro e entrega esse açaí pra tua mãe ali. – ele sentou do meu lado. — mas por que você acha que Papai Noel não existe?

— Nunca me deu nada, , eu sei que quem me dá as coisa é minha mãe e meu pai.

— Teu pai não te dá nada, eu hein, depende dele pra te dar alguma coisa pra tu ver! – falou imediatamente a mãe do garoto, equilibrando sacolas de dezenas de lojas e um celular pronto pra tirar a nossa foto.

— Ó, de fato Papai Noel não existe não… mas é sempre bom acreditar em coisas boas, que enchem nosso coração de alegria, não? – falei com a consciência de que eu tava mandando um papo xarope pra caramba, mas falei.

— Que papinho… – soltou baixinho, mas eu escutei.

— Mas agora sério, garotão, Papai Noel é o que menos importa nesse dia. Tá vendo esses bicho tudo aqui? O que que elefante tem a ver com o Natal? – e o menino ria — nada, ? Mas meteram serinho elefante aqui, girafa, a porra toda. Ou seja, nada disso aqui é verdade, é só uma “historinha” – e fiz as aspas com os dedos — pra deixar a criançada feliz. E deixa adulto feliz também. Faz parte da magia do Natal.

— Papo reto. – ele estava acompanhando atentamente.

— Mas sabe o que é de verdade? O que vem de tudo isso, o que vem do nosso coração. É de verdade essa tarde com sua mãe comprando presentes pra quem vocês amam, é de verdade a noite de Natal onde você vai ficar insistindo pra comer o bolinho de bacalhau antes de meia noite. – e a mãe dele acenou com a cabeça como se eu tivesse adivinhado toda a pirraça dele — No final, meu amigão, é isso que importa.

— Tu é maneiro, tio, gostei de tu. Brigadão. – e sorrimos, abracei o sapequinha e tiramos a foto. — Valeu, bom trabalho pro senhor! Dá uma água aqui pra esse camelo que parece que ele tá com sede, ó a cara do bicho… – e riu.

Foi andando pra perto da sua mãe e, quando pegou o açaí derretido de volta, falou baixinho – mas eu ouvi. Eu ouço tudo. – “mãe, Papai Noel pra mim é a senhora. Te amo, tá?”. E se abraçaram e foram embora.

Até que trabalhar no shopping é mais que olhar a arca de Noé deformada. Existe sim uma saída e continua sendo o infinito amor ao próximo. Fico com a pureza da resposta das crianças. O Natal do Claudin está mais vivo do que nunca.

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