Outro lado da grade: a agricultura urbana no Parque Madureira

Madureira completou 407 anos no último dia 25 de maio, repercutindo os sempre celebrados elementos do samba na Portela e no Império Serrano, o grande mundo de variedades de compras no Mercadão, a diversão do Parque Madureira e tantos pontos de encontro da central do subúrbio. Mas, em um momento de pandemia com mais da metade dos domicílios no país (59,4%) apresentando algum grau de insegurança alimentar – com a corda pendendo para números maiores de fome – o papo é sobre é a terceira maior área verde da cidade, onde muitos alimentos nascem: o Parque Madureira.

Antes do projeto grandioso do Parque, a comunidade Vila das Torres, que ficava na área das torres da Light – como o nome diz – foi removida e a horta que empregava dezenas de agricultores teve uma quebra no funcionamento. Um trabalho de anos, de geração em geração, além de conectado com a venda no Mercadão e a própria subsistência, detalhado na matéria da Fazendo Média, de 2010. 

Hoje, sem moradores e coordenado pelo projeto Hortas Cariocas, da Prefeitura, são mantidas apenas duas hortas: do Cajueiro e da Palmeirinha. A agricultora do Cajueiro, Cândida Valéria, uma das 11 trabalhadoras da horta, lembra da ocupação da área anteriormente e demonstra o amor à agricultura. “Aqui era plantação e colheita de diversos frutos para os moradores que ocupavam a área. Eu sempre tive horta no meu quintal, né. Gosto muito e é um prazer fazer esse trabalho. Eu planto pra ver o processo da horta crescer”, detalha ela, que está há 11 meses no serviço. A venda dos produtos acontece no próprio Parque e há também doação para comunidade do Cajueiro.

Cândida e a horta do Cajueiro

Mesmo vendo cair a entrega de adubos por parte do Hortas Carioca, Cândida e o grupo seguem o movimento de desenvolvimento de diversas hortaliças no local. Cada tipo de semente tem uma forma de crescimento com adubos diferentes, por isso precisam do investimento. A coordenação do programa emprega quase 20 agricultores dos hortos da Palmeirinha e Cajueiro.

O local da horta, de propriedade da Light desde 1908, já era um comércio de hortaliças que tornou Madureira um grande centro distribuidor de hortifrutigranjeiros. A centralidade do bairro deve-se também ao Mercado Municipal de Comercialização de produtos agrícolas, que era localizado próximo à linha ferroviária auxiliar.

Antes das remoções da Prefeitura para o projeto do Parque, eram 897 domicílios localizados na área, e a maioria foi transferida para Cosmos, na Zona Oeste. O filme “Queremos ficar em Madureira”, lançado em 2019 pelos coletivos Fala Subúrbio e Subúrbio em Transe, detalha essa transformação.

No início do ano foi registrado o encerramento do contrato de três engenheiros agrônomos, a suspensão de veículos que transportavam insumos, atrasando a chegada de adubo e causando o descarte de mudas. Uma verdadeira precarização do trabalho neste momento de fome.

O coordenador do programa de agricultura urbana da AS-PTA (Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa), que é uma associação de direito civil sem fins lucrativos que atua para o fortalecimento da agricultura familiar e o desenvolvimento rural sustentável no Brasil, amplia o debate para o trabalho em diversos coletivos no Rio e espera que o serviço seja tratado como política pública, não apenas um programa de governo, como o Hortas Carioca.

“Tem um movimento de uns 20 anos nas periferias para fortalecer essa agricultura carioca. Tanto em agrícolas remanescentes quanto em favelas”, explicou. “O Hortas Cariocas, nos últimos governos, é um bom programa, mas precisa se tornar uma política pública construída em parceria com a sociedade civil. Agricultura urbana existe na zona oeste, zona norte e nas favelas do Rio. Se você for no Alemão, Rocinha, Maré etc tem agricultura acontecendo. Dentro das cidades é preciso reconhecer a agricultura familiar remanescente e essa atividade econômica. A agricultura no Rio precisa ser reconhecida e valorizada “.

A produção agroecológica, que é a agricultura que incorpora as dimensões sociais, culturais, éticas e ambientais, tem capacidade para produzir cerca de 6% a 10% a mais do que o agronegócio. Márcio esclarece as diferenças que cercam o agro na cidade, especialmente nesta área com histórico de agricultura.

“Nem toda agricultura familiar é uma agricultura agroecologia. Infelizmente foi tomada pela agricultura familiar do pequeno agronegócio. Mas ainda assim a agricultura familiar tem um embrião em uma cultura camponesa. A agricultura familiar alimenta a população. A agricultura urbana é uma agricultura familiar dentro da cidade. Produz alimentos e gera saberes”, finalizou ele.

Segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMAC), a Prefeitura planeja aplicar, em 2021, 50,8% a mais do que o investido em 2020 no Hortas Cariocas. O programa existe desde 2006 e capacita a população das favelas e escolas que possuam áreas possíveis de se implantar hortas comunitárias. De março de 2020 até o fim do ano, 42 unidades do Hortas doaram mais de 33 toneladas de alimento para quase 4 mil famílias.

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