O silêncio para São Jorge

A festa celebrada por religiões de umbanda, candomblé e católica deve ser feita de forma reclusa, seguindo o isolamento social por conta da pandemia do coronavírus

O dia de festa, cerveja, samba e fé ofertada para São Jorge e Ogum deve mudar completamente a dinâmica da população em meio a pandemia da covid-19. O isolamento social deve prevalecer em uns dos dias mais representativos sobre o encontro do povo nas ruas, casas de amigos e nas instituições religiosas.

A Paróquia São Jorge, em Quintino, zona norte do Rio, não vai realizar a festa ao santo guerreiro pela primeira vez em 75 anos de existência. A festa presencial a São Jorge foi adiada para agosto ou setembro pela Paróquia, mas permanecem programadas toques de clarinetes, sinos, queima de fogos e missa desde às 5h. A Igreja estará fechada e a transmissão da missa será de forma online. Segundo eles, o Império Serrano, que faz historicamente a procissão em conjunto nas ruas, – saindo da própria quadra, passando por Quintino e retornando para a Escola – não teve nenhum contato programado com a Paróquia.

“Tudo será feito via Facebook e outros meios de comunicação. Sem a presença física dos devotos, pois a Igreja estará fechada devido essa pandemia. Nós queremos preservar a vida que é o melhor presente que Deus nos deu”, declarou o Padre Dirceu Rigo, pároco do local.

Foto: reprodução

Não só a religião católica tem uma ruptura na data de homenagear São Jorge, mas as casas de umbanda e candomblé também vão precisar se adaptar ao novo momento. A comunidade candomblecista, de seguimento de Ketu, Ile Axé Meji Omi Odara, em Saracuruna, Duque de Caxias, por exemplo, fará as oferendas para Ogum, – que também é comemorado no mesmo dia de São Jorge e tem o sincretismo religioso – mas sem deslocar as pessoas para local. Será ofertada por moradores próximo de Saracuruna e respeitando as normas de higiene.

O Babalorixá Joaquim D’Ogum, que gerência o Ile Odara, programou o dia com feijoada e reza, porém sem sair da própria residência. O Babalorixá se apegou a um itan do candomblé, que são histórias que formam o caráter da religião, para lembrar como Ogum virou um orixá, assim, refletir o dia 23 de abril sem a presença de pessoas juntas.

Foto: Reprodução

“Assim como a bíblia, nós temos o nossos itans. Histórias para entender os elementos divinos. Tem um Itan que Ogum chega a sua aldeia, na qual tinha deixado o seu filho como rei, e as pessoas não respondem aos chamados dele. Ele se irrita e dizima as pessoas. Quando o filho dele chega e pergunta o que houve, ele diz que as pessoas usaram de afronta com ele. O filho diz que não e explica que o dia estava tendo a festividade a Ogum por isso era preciso silêncio em respeito a ele. Então, Ogum, com vergonha, abriu o chão e entrou pra terra virando um orixá. Tomando como base esse itan, ele (Ogum) vai entender, enquanto orixá, o nosso silêncio”, afirmou Joaquim.

A casa Ile Odara vai se manter aberta só para receber a fé e as oferendas de moradores próximos. Mesmo seguindo as medidas de distanciamento social, o Babalorixá Joaquim conta que vai contra as tradições do dia.

“Foge um pouco da ideia de São Jorge. A popularidade de São Jorge está muito atrelada a Ogum. E Ogum, além de guerreiro, é muito voltado a família, ao trabalho, boas relações. São Jorge ganha mais notoriedade por conta do sincretismo. Perde um pouco de sentido ter um espaço sem ninguém, mas no momento é o que é possível de se fazer”, finaliza o Babalorixá.

A cultura do encontro de pessoas ao santo guerreiro foi rompida neste 2020, mas a fé deve persistir nas religiões que saúdam São Jorge e Ogum. O silêncio nas ruas será retribuído com energias positivas nas residências e instituições religiosas.

Observação:

Canais nas redes sociais e o site do Ile Odara para acompanhar mais informações.

A Igreja Matriz de São Jorge também tem sua rede social, onde será exibida a missa.

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