O Risco Lula

A tarde de 8 de março deste ano pandêmico ficou marcada por uma decisão que mudou o tabuleiro político do Brasil e pautou o resto da semana em todo o país – e em outros lugares do mundo. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin anulou as condenações de Luiz Inácio Lula da Silva pela Operação Lava Jato, declarando incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba, responsável pela maioria dos casos da operação para julgar o ex-presidente. A decisão derrubou as condenações de Lula em segunda instância que o enquadraram no impedimento da Lei da Ficha Limpa; as ações voltaram à primeira instância e – com isso, num primeiro momento – Lula voltou como titular ao jogo e pode concorrer às eleições de 2022.

A decisão chegou quase dois anos depois de o processo viciado da Operação Lava Jato ser escancarado pela série de reportagens lideradas pelo Intercept Brasil, que teve acesso às mensagens trocadas pelo então juiz federal Sérgio Moro e os procuradores da operação em que várias conversas deixaram claro que Lula era um adversário político a ser batido, e não apenas um réu a ser julgado com seus direitos garantidos pela Constituição Federal. O conluio entre procuradores enviesados e um juiz imparcial garantiu a eleição de Jair Bolsonaro, na indicação de Moro como “Super Ministro da Justiça” e pavimentou o caminho para a pior gestão política da história deste país.

Fato é que, mesmo dentro desse contexto de pior gestão política da história, onde o caos e desgraça se superam dia após dia sob o comando de Bolsonaro, parte da dita grande imprensa e influenciadores políticos não pensaram duas vezes antes de considerar a volta de Lula como possível candidato um risco maior do que a política de morte do Governo Federal durante a pandemia da Covid-19. O discurso de preocupação com as vidas perdidas, com a falta de assistência econômica aos mais pobres e de contrariedade ao desprezo do presidente pelos familiares que perderam pessoas queridas, foi pelo ralo em nome de uma suposta preocupação com a “polarização” do país, sobretudo no pior mês da pandemia

As reações à volta ativa de Lula ao cenário político evidenciaram que o risco à democracia também é causado por quem se põe como aliado em determinadas situações, mas só vai até a página dois. Liberais não pensaram duas vezes para abraçar João Dória, que durante a gestão como prefeito de São Paulo propôs a distribuição de “ração humana” para população mais pobre e jogou água fria em moradores de rua, como oposição ao bolsonarismo. Até mesmo o apresentador do programa que costuma deixar pessoas pobres em situações constrangedoras em troca de dinheiro nas tardes de sábado na maior emissora do país virou uma opção.

Lula ressurge num momento de quase conformidade com o cenário de que para bater Bolsonaro qualquer ser humano com mais de dois neurônios estaria apto para a presidência e frustra as expectativas de quem pretendia concorrer apenas para preencher esse vácuo. O primeiro discurso do ex-presidente após recuperar os direitos políticos obrigou Bolsonaro e seus cúmplices a mudarem o discurso e a nivelarem o debate por cima. Mesmo ainda tendo que responder à justiça pelas investigações em que está envolvido, Lula deixou claro que o maior risco que ele representa hoje é para Bolsonaro, seus pares e para aqueles que querem entregar a política do país a uma grande frente ampla de uma marcha só.

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