O Reflexo da Adaptação

“Vender nostalgia é lucrativo, ainda mais se a embalagem for brilhante.”

Quando o primeiro trailer do remake de O Rei Leão foi divulgado, a internet ficou, compreensivelmente, maravilhada. Era o filme que marcou a infância de todos, agora com visuais foto realistas e com artistas mais queridinhos do momento, como Donald Glover e Beyoncé. Tudo projetado matematicamente para levar a loucura o maior número de pessoas possível. Mas, debaixo de toda animação, uma pergunta pairava no ar: “qual o propósito disso?”

Pessoalmente, essa pergunta sobre os recentes remakes da Disney me assombram desde que o visual do gênio do novo Aladdin foi exibido em um trailer, e o resultado era…menos que espetacular.

Diante disso, é válido um questionamento: O que as animações do passado, tão ricas em personalidade e inventividade, tem a ganhar ao serem refeitas com live action (ou seja, atores de verdade) ou ultra realistas? Com Alladin, esse problema não é tão forte, visto que a trama gira em torno de personagens humanos não muito estilizados ou caricatos, salvo o gênio. Pouco se perderia na transição para o mundo real, ainda mais com a ajuda de CGI.

A situação é um pouco diferente quando se trata de Rei Leão. Como um personagem como Scar, por exemplo, com seu pelo marrom e olhos verdes e amarelos, se tornaria mais interessante caso se parecesse com um leão de fato? Mais do que dublagem, todo o seu caráter traiçoeiro era transmitido através de olhares, expressões e gestos, todas as coisas que um leão de verdade não faz. Na nova versão, o seu design o apresenta mais como um leão velho e cansado do que a figura duas caras que é. Scar é o exemplo mais óbvio, mas todos os personagens perdem um pouco de personalidade ao serem transferidos ao mundo “real”. Olhe a foto abaixo e diga se o novo Simba não aparenta estar simplesmente entediado.

Outros problemas surgem com essa proposta realista, que acaba entrando em conflito com os momentos mais fantásticos do filme original, como a sequência em que o espírito de Mufasa se manifesta através das nuvens, que na nova versão se resume a uma grande nuvem que se assemelha um pouco a figura de um leão quando os raios cruzam a tela. As icônicas sequências musicais também perdem, se O que eu mais quero é ser rei e Se Preparem usavam de toda a capacidade da animação 2D para construir toda uma mise-en-scene distinta uma das outras, com a segunda buscando inspiração até mesmo na iconografia nazista em sua execução, em 2019 quase todas as cenas de música se resumem aos personagens… andando. Nada de Simba escalando girafas ou erupções vulcânicas surgindo a cada passo de Scar, eles somente… andam, em diferentes velocidades. Recentemente, o crítico Bilge Elbri descreveu bem a sensação de assistir a essa repaginação: “O filme de Jon Favreau atingiu o que se achava impossível: criar animais tão autênticos que poderiam se passar por reais. Mas ao fazer isso, me lembrei de algo que estava ausente nessa nova versão: cores, linhas, personalidade, calor, encantamento. O que eu subitamente desejava era por animação feita à mão.”

Artisticamente, a nova estética não faz o menor sentido, já que muito se perde, mas mercadologicamente, é genial: introduza uma histórica clássica para a nova geração de consumidores e seduza os antigos fãs a reverem o filme que ama com a mais nova tecnologia, mesmo que ela não acrescente nada de novo. Vender nostalgia é lucrativo, ainda mais se a embalagem for brilhante.

É um triste destino para uma obra considerada inovadora na época. É estranho pensar, mas na época de sua produção, internamente Rei Leão era considerado o filme “menor” da Disney, um projeto arriscado, com Pocahontas sendo a menina dos olhos do estúdio e aposta mais segura. No seu lançamento, o drama de Simba foi louvado justamente pelo uso da animação, com o crítico Roger Ebert citando o uso de computadores na cena da debandada de Gnus como um momento memorável do filme.

Não que o remake não tenha seus pontos altos. As cenas em que os animais se comportam como tal, são fascinantes. No mundo cinéfilo perfeito, todo o filme se passaria assim: sem falas, mas somente através do comportamento animal.

É importante frisar que adaptações/remakes não são em si o problema. Novas visões para velhas histórias são bem vindas, com destaque a palavra nova. Jon Favreau não fez nada de novo, o roteiro é praticamente o mesmo ou com alterações tão mínimas que não chegam a fazer diferença, o resultado é artisticamente inerte. E pelo que me informa o Rotten Tomatoes, os outros remakes também não justificam seu motivo de ser, já que todos estão na faixa de 50% de aprovação

Entretanto, o cenário não precisa ser pessimista. Ao que tudo indica, a versão live action de Mulan irá abandonar a fantasia e buscar inspiração nos filmes de artes marciais chineses como O Tigre e o Dragão, que pode despertar o interesse em longas similares para uma nova geração de cinéfilos, que poderão produzir novas obras e assim por diante.

Ou pode ser mais um de uma longa série de filmes imensamente lucrativos, mas igualmente descartáveis. Só o tempo irá dizer.

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