O mês que vai durar 4 anos

Um mês de recuos, distrações, desmentiras, discurso vazio e um escândalo com o filho #01.

À beira de um colapso nervoso, iniciamos o ano de 2019. Quem se desgastou física e psicologicamente no período eleitoral, agora estará ainda mais preocupado: Bolsonaro assume a Presidência da República. O que até então eram propostas de governo (isso existiu?), se tornarão medidas palpáveis. Messias fará valer sua Palavra.

Porém, em um mês, o governo se mostra incapaz de dar passos concretos. Mesmo antes da posse oficial, Bolsonaro já demonstrava inconstância, como por exemplo, em relação à fusão Agricultura/Meio Ambiente. O cenário não mudou de lá pra cá: recuo sobre a instalação de uma base militar americana no Brasil, recuo no decreto de aumento do IOF, recuo sobre suspensão da reforma agrária, recuo sobre a mudança dos livros didáticos. E contando…

No que tange à inovação, diria que Bolsonaro institucionalizou e legitimou o arrependimento. Secretaria de Arrependimentos. “Mas não sou eu quem responde por isso, taókei? Pergunta pro Paulo Guedes.”

Outro ponto importante é a relação conturbada da nova gestão com a imprensa mundial. Em seu primeiro evento internacional após a posse, no Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça), Bolsonaro embarcou com mais cinco ministros. O grande reforço de nada adiantou: não apresentou uma agenda de compromissos, não falou sobre medidas que serão tomadas para alcançar os objetivos estabelecidos. Mais do mesmo, sem qualquer aprofundamento, num discurso de 6 minutos. Ótimo para quem está habituado a debater em 140 caracteres.

Acontece que, com a ausência de alguns líderes fundamentais ao evento, Jair Bolsonaro passou a ser o protagonista. Automaticamente, todos detinham grandes expectativas. Contudo, o mesmo foi na contramão dessa importância ao fugir da imprensa. Cancelou a entrevista coletiva (17 minutos após o horário para início da mesma) e se negou a dar qualquer declaração, alegando falta de tempo. Nem mesmo a força-tarefa que estava presente junto a Bolsonaro falou aos jornalistas. Um Presidente que emudece diante de perguntas ácidas e só dá entrevistas a veículos selecionados, que curiosamente são simpatizantes ao governo, só demonstra o despreparo e a falta de capacidade política deste mandato. “Verás que um filho teu foge à luta sempre que der”.

A relação de Bolsonaro com a imprensa é tão tortuosa que beira à censura. Numa clara tentativa de esconder irregularidades, o governo assina um decreto que muda as regras que regulamentam a Lei de Acesso à Informação. Agora, mais de mil funcionários que ocupam cargos de confiança poderão classificar documentos como secretos e ultrassecretos, mantendo dados sob sigilo de 15 a 25 anos. Nestas condições, a transparência deixa de existir, deixando a imprensa sem acesso a documentos importantes. Nos moldes originais, a LAI é fundamental para o combate à corrupção.

Entretanto, combater a corrupção não parece ser o objetivo, mesmo que durante toda a campanha eleitoral, essas fossem palavras de ordem. Flávio Bolsonaro, filho do Presidente, está envolvido em escândalos desde dezembro do ano passado. O começo se deu quando o COAF identificou transferências de funcionários do gabinete de Flávio para a conta de um ex-assessor do mesmo, Fabrício Queiroz. Recentemente, um novo relatório identifica 48 depósitos suspeitos feitos em dinheiro na conta de Flávio, no valor de 2 mil reais cada, sempre realizados em uma agência próxima a ALERJ. O patrimônio declarado por Flávio saltou de R$ 25,5 mil para R$ 1,75 milhões.

Mas é tudo uma questão de meritocracia. Bolsonaro, que anula a responsabilidade de seu filho o chamando de “garoto”, vê como infundadas as acusações proferidas a Flávio, pontuando arbitrariedade no processo. Filho de peixe, peixinho é.

Dado o exposto, fica difícil assimilar o primeiro mês como positivo. Bolsonaro perde força até mesmo com aliados importantes, como Olavo de Carvalho e o MBL (Movimento Brasil Livre), fazendo com que seu eleitorado se volte contra suas ações. No que se refere, por exemplo, a posse de armas, o texto não atende ao esperado por seus apoiadores, que vislumbrava a facilitação do porte, mas ganhou apenas flexibilidade: é mais fácil comprar sua arma agora, desde que ela esteja em casa e guardada em um cofre. O decreto não é a grande mudança esperada por quem fez campanha.

Nos próximos meses, Bolsonaro precisa mostrar capacidade e coerência em suas ações, ou então seu recente mandato entrará em crise. Aguardemos os próximos passos com os dedos cruzados, como quem torce pelo país, sem necessariamente torcer por este governo.

Texto: Marianna Garcia

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