O jogo do perdeu, ganhou

“Pede pra sair!”. Disse algumas vezes a cantora Karol Conká para Lucas Penteado durante este BBB 21. E poucos dias depois foi exatamente o que aconteceu: o provável favorito se retirou do jogo após duas semanas, com grande parte desses dias sendo massacrado psicologicamente e desumanizado por quase todos da casa.

O jogo nesta edição é o da covardia. Pode botar no pacote também vários preconceitos estruturais disseminados no dia a dia: racismo, xenofobia, homofobia, bifobia, intolerância religiosa, além de ideias confusas sobre pessoas trans e drags. A maior parte desses ataques vem do chamado “gabinete do ódio”, formado por Lumena, Karol Conká, Projota e Nego Di. Mas sem esquecer do “centrão” com Thais, Rodolffo, Caio e Pocah, principalmente, que reforçam os temas pautados pelo “gabinete”.

O elenco escolhido e a dinâmica do programa rendem todo o engajamento que as redes sociais pedem: o vício por discutir o ódio. Um exemplo de talento para o entretenimento do ódio foi Felipe Prior (BBB 20), que respirou a raiva o tempo inteiro e continua como um dos principais nomes no qual suscitam saudades do público para este ano.

O BBB somos nós, culturalmente, mas com as mãos invisíveis do mercado (leia-se Boninho). Olhando bem o elenco depois de duas semanas parece fácil apontar as pessoas que eram problemáticas: Conká era conhecida pelo trato ruim com muitos indivíduos no privado, Lumena trabalhava com Felipe Neto antes de entrar (sinais, fortes sinais) e Nego Di pelo pacote completo de ideias nojentas na internet. 

Por isso, a ação de sair do jogo por conta própria foi um ato gigante de Lucas Penteado. O beijo e o carinho em Gilberto finalizaram uma participação linda, que foi mais revolucionária do que as mentiras que foram pintadas lá dentro. O homem abusador, bandido, maluco e até assassino (pode guardar a faca, Projota) nunca existiu.

Na mesma rota de Lucas, a família de Arcrebiano pediu a saída do rapaz pela questão de tortura psicológica e Juliette já havia colocado a possibilidade de se retirar do programa pelo massacre sofrido dentro da casa. Ambos disseminados por Karol Conká e apoiado pela sua bucha, Lumena.

A edição BBB em pandemia 2.0, após quase um ano realmente sentindo reflexos da Covid-19, está afeita a opção da troca do prêmio pelo alívio e conforto mental da saída da casa. Talvez este fato seja a única coisa que o discurso millennial e militante, fora e dentro da casa, encontre entrosamento entre a teoria e a prática.

As ações microfascistas travestidas de boas intenções de Projota, Lumena e Karol vem – parece que propositalmente pela escolha do elenco – para diminuir e rejeitar debates e pautas de um meio mais à esquerda; que no momento estão sendo ridicularizados e estereotipados ou serão minimizados após o programa. 

Mas o reality também traz, realmente, menos peso para as questões cotidianas, e ainda não teremos nem carnaval. O período de felicidade conjunta está ali. Por isso, ainda é gostoso demais curtir uma fofoquinha de problemas com Projota, Karol e Lumena, e não o que vem depois do fim do nosso sentimento bbbêrizado.

Lá dentro da casa a construção da narrativa deste trio segue, infelizmente, a estrutura do país do 17: massacre ao diferente e mentiras mesmo com provas, que no caso do BBB são as câmeras, para controlar os problemas. Aliado aos pequenos preconceitos envolvidos no dia a dia da maioria da casa. 

A felicidade da saída nesta edição parece ser regra em ganho de consciência, saúde mental e forças para enfrentar o contexto triste de lá e daqui.

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