O fenômeno dos jogos eletrônicos nas periferias

Em 2019, o jogo Free Fire alcançou a marca de jogo mobile mais baixado no Brasil – e isso não é por acaso

Ao longo do século 21, foram desenvolvidas ferramentas que mudaram completamente nossa percepção de mundo, e a forma como ele gira. Tudo, desde a nossa comunicação diária, resultado de milhares de anos de evolução, até o dinheiro, foi tocado pelo avanço da globalização e de novas tecnologias. Ainda que pareça maravilhoso, devemos compreender que o tempo humano/social é desproporcionalmente inferior ao tempo demandado para essa atual corrida tecnológica. Pode-se entender como dois lados da mesma moeda. Em um mesmo momento onde o mundo automatizado segue auxiliando no desenvolvimento de sociedades, outras são lesadas com tamanho avanço. Nos mais diversos eixos.

A questão é: esse fato usado como alusão, reflete a forma como uma considerável parte das sociedades vivem e consequentemente, pensam. Em meio a desigualdade, é importante pensar em planos públicos de integração e socialização de classes mais baixas, principalmente em aspectos culturais no Brasil, em locais onde a tecnologia e os avanços citados anteriormente não chegam.

Houve um tempo onde crianças brincavam mais frequentemente na rua e tinham em seus próprios corpos instrumentos de socialização e entretenimento. Graças a má administração social de renda e educação em governos passados, isso tem se tornado menos comum, devido à crescente taxa de crimes cometidos no Brasil, a partir dos anos 70. Independente da época, sempre houve outros meios de passatempo propostos de forma acessível, como jogos de tabuleiro improvisados ou adedanha, que seguem sendo consumidos, mas agora em formato digital.

Jogos eletrônicos nas periferias eram reservados a recortes de fliperamas instalados em bares e lan-houses. Mesmo sem o acesso gratuito, a ideia base se mantinha: fortalecimento da comunicação e um entretenimento popular. Atualmente, o consumo dos jogos eletrônicos ainda permanece na periferia, mas por diferentes meios. Ainda que a inserção de novas tecnologias demore a chegar nesses locais, como citado anteriormente, algumas já são acessíveis e fazem parte do cotidiano periférico, sendo os smartphones um deles.

Em 2019, Free Fire (Jogo online no estilo de guerra), alcançou a imbatível marca de jogo eletrônico mobile mais baixado do Brasil – e isso não é por acaso. A partir de 2018, diversas empresas passaram a lançar ou compatibilizar seus jogos no estilo “Battle Royale”, para smartphones (mobile). No entanto, os principais títulos eram reservados para uma pequena parcela dos usuários, que possuíam aparelhos com configurações restritas dos demais. Para se ter ideia, o aparelho que foi eleito pela Tec Mundo, como o ideal em custo benefício, para rodar títulos como Playerunknown’s Battlegrounds (PUBG) e Fortnite, foi o Galaxy A30, que custava na época, pouco menos de um salário mínimo.

O lançamento de Free Fire chegou pra contemplar a outra parcela dos usuários excluídos e teve uma missão de acessibilidade muito bem executada, entregando desempenho razoavelmente similar, sem perder a essência dos jogos online. Talvez a única questão que ainda seja um empecilho nisso tudo é o acesso a internet, uma vez que jogos online consomem uma grande quantidade de dados. Mas de fato, é incrível um projeto entregar a comunicação atual e a integração na cultura jovem sem necessariamente ser através de um console ou um computador de alto desempenho. Fatores que sustentavam até ali a elitização dos e-sports (categoria competitiva de esportes eletrônicos).

O sucesso imediato de Free Fire, fez com que o conselho dos principais eventos de e-sports, adicionasse o título ao seu catálogo competitivo, tornando, assim, mais jovens periféricos em jogadores profissionais de Free Fire. Nobru é um desses jogadores, morador da comunidade do Jardim Novo Oriente, na zona sul de São Paulo, é um exemplo da inclusão e acessibilidade aos jogos eletrônicos. Com incontáveis prêmios e títulos acumulados, o jovem de 19 anos se tornou um dos melhores jogadores de Free Fire do mundo. Atualmente joga pelo time de e-sports do Corinthians e é uma das maiores influências e referências para os jovens ao redor do país e, principalmente, da sua comunidade.

Além de campeonatos nacionais, com times renomados, há também crescentes e importantes movimentos de dentro das periferias. Em destaque, a “Copa das Favelas: Divisão de Free Fire”, o primeiro campeonato do jogo criado e pensado para a periferia. “Copa Das Favelas”, assim como o “PerifaCon” e “Gamer Perifa”, são projetos criados por Andreza Delgado, que visam cobrir o atraso tecnológico e elevar a importância da periferia a essas áreas, que durante muito tempo os foram negados.

Ainda que o amor pelos games comece por trás das telas, não se reserva apenas a esta posição. O amor pelos games gera curiosidade em muitos jovens, que buscam entender como eles funcionam. Foi esse caso que motivou o desenvolvedor Bannaker Braulio (também criador da First Phoenix Studio) a estudar os códigos de programação e comando dos jogos, através de um antigo computador de lan-house. Com o passar dos anos, foi aprimorando as práticas de programação, o que resultou na criação de RIO — Raised In Oblivion, um jogo no estilo “sobrevivência”, ambientado no subúrbio do Rio de Janeiro, com lançamento agendado para este ano. Foram muitos os desafios que acompanharam o jovem programador até aqui, mas graças ao apoio de comunidades gamers na internet, uniu forças que viabilizou a produção da sua primeira grande obra.

Essas foram apenas algumas das diversas influências positivas dos e-games dentro das periferias, que também se tornam uma importante ferramenta auxiliar no distanciamento destes jovens da violência dos guetos, ainda que jogos de tiro possam parecer à primeira vista influências negativas. É óbvio que a depender da criação, condições psicológicas e faixa etária, pode se tornar um fator negativo. Mas a questão é que a integração destes jovens no universo dos jogos online, acrescentam demais no crescimento pessoal e cultural enquanto indivíduos. O contato diário com pessoas de diferentes regiões, cidades e países fortalecem o conhecimento de mundo, principalmente em um país como o Brasil, onde há um grande déficit no sistema público educacional.

Por mais que os avanços sejam visíveis e a democratização da cultura tecnológica tenha se tornado mais palpável, ainda há um preconceito escancarado dentro da comunidade gamer em relação a profissionais de mobile, e pior ainda, há uma sensação de superioridade entre os próprios jogadores, que se colocam em um pedestal por jogares títulos mais pesados, com exigências mais hardware dos aparelhos, como Call Of Duty e Fortnite, por exemplo. Todo esse preconceito é explicado pela segregação social e tecnológica explicada no início do texto. De qualquer forma, é satisfatório ver a inclusão da periferia em todos os espaços, mais ainda nas áreas tecnológicas. Influências são necessárias para o crescimento das classes baixas. É o respiro de quem sonha todas as noites, e de quem as passa em claro para fazer acontecer.

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