O estrago depois do estrago: “a violência não só mata, como também adoece”

Texto por: Carlos Nhanga e Carolina de Mendonça

Dentro da nossa casa,que a gente luta pra ter. Nossa casa, nosso espaço e acontecer uma coisa  dessas, não ter liberdade pra nada. Agora a casa lá cheia de sangue, tudo revirado. Não sei nem da onde a gente vai começar pra arrumar isso. Principalmente minha filha vai precisar de psicólogo, vai ter que ter um acompanhamento que não sei como vai crescer uma criança. A gente é adulto, a gente sofre, mas consegue reviver. Mas uma criança de nove anos vai crescer com isso como? Não tem como. Não sei da onde eu vou começar não.

O relato desesperado do morador do bairro Jacarezinho, zona norte do Rio de Janeiro, dado ao fotojornalista Pedro Prado (The Intercept Brasil) após a chacina que deixou 28 mortos durante a operação mais letal das forças de segurança do Rio, gerou comoção aos que viram o vídeo. Pessoas limpavam sangue e balas pelo chão da favela após a chacina, que completou quatro meses no último dia 6 de setembro. Entre os espaços com resquícios de um massacre estava o quarto, com lençóis cor de rosa, de uma criança de apenas nove anos.

Lidar com as consequências dos massacres promovidos pelo Estado se tornou uma realidade imposta aos moradores das favelas e periferias do Rio de Janeiro. E isso não é de hoje: 26 anos e 7 meses antes da chacina do Jacarezinho, em outubro de 1994, as polícias Civil e Militar subiam a localidade da Nova Brasília, no Complexo do Alemão, para uma operação que terminou com 13 pessoas mortas. Pouco menos de um ano depois, em maio de 1995, a Nova Brasília voltou a ser palco de mais uma chacina do Estado: outras 13 pessoas mortas em nova operação policial na favela. Num curto espaço de tempo, moradores tiveram que conviver dezenas de corpos – carregados em carrinhos de mão – estirados, sangue espalhado e uma sensação de não poder viver o luto de parentes e amigos, antes de ter que provar a inocência deles. 

Quase 27 anos após a chacina, dois policiais e três ex-policiais que participaram do massacre na Nova Brasília foram absolvidos em julgamento no último dia 17 de agosto. Para o Ministério Público do Rio, que antes havia  entendido que as vítimas morreram em confronto com os policiais, agora faltam provas da participação dos agentes no crime. Os jurados concordaram.

Desde 1994, essa realidade de sangue e luto imposta pelo Estado se repetiu várias e várias vezes: o Grupo de Estudo dos Novos Ilegalismos da UFF (GENI/UFF) e o Instituto Fogo Cruzado mapearam 15 operações de forças de segurança na região metropolitana do Rio que terminaram com mais de 12 mortos, totalizando 224 vítimas.

O estrago causado por tantos tiroteios, violações de direitos, mortes e sangue impulsiona o estrago mental de quem é obrigado a conviver com essas tragédias durante toda uma vida. A estudante de psicologia Luiza Cardoso, 22 anos, foi moradora do Jacarezinho até 2018 e hoje é Coordenadora de Saúde Mental do Projeto LabJaca – laboratório de dados e narrativas formado por jovens negros e favelados que moram no Jacarezinho. Luiza conta que ama o bairro em que cresceu, considera o melhor lugar do mundo, porém a situação de violência a fez sair do lugar que tem tanto carinho. “Com o tempo eu acabei desenvolvendo ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático. Eu tinha tanto medo de operação que acordava antes do horário que a polícia entrava (umas 6 da manhã) e ficava ansiosa rezando pra não acontecer nada e eu poder sair de casa”, afirmou a jovem.

Após a operação policial ocorrida no dia 6 de maio, grupos se organizaram para dar suporte jurídico e de saúde aos moradores da região afetados pela carnificina no Jacarezinho. Luiza assumiu a Coordenação de Saúde Mental do LabJaca para realizar os encaminhamentos para profissionais de saúde mental com as pessoas afetadas pelo massacre. Em prioridade, aqueles que tinham proximidade com as vítimas fatais da chacina e em segundo momento todos os moradores do Jacarezinho que passaram por eventos traumáticos e necessitariam de suporte profissional para psicólogos parceiros e voluntários, como é o caso do grupo Psicanálise no Jacarezinho. 

A jovem psicóloga conta também que as iniciativas públicas realizam projetos apenas após casos como a recente chacina. O que não é funcional, visto que as demandas em saúde mental antecedem a ocorrência do evento traumático. Como medida emergencial a estudante comentou o Projeto da JuvRio que atende 30 jovens afetados pelo massacre. “A ideia deste projeto é que depois de um período sendo atendidos por psicólogos voluntários  da Casa do Menor eles passem a ser atendidos por psicólogos do Sistema Único de Saúde. Apesar disso, nós entendemos que a capacidade de suporte do SUS precisa ser ampliada. Hoje nós temos a falta desses psicólogos na unidade de saúde pública e principalmente se tratando de lugares como o Jacarezinho.”

A situação das políticas públicas em saúde mental tem possibilidade de piora. No final de 2020 foi ameaçado um “revogaço” na saúde mental que favorece a iniciativa privada de lógica manicomial no cuidado em saúde psíquica no país. Os riscos de retrocesso podem afetar ainda mais pessoas, como os moradores de Jacarezinho, que passam situações traumáticas e com afetação psicológica.

Os problemas relacionados aos impactos da violência urbana na vida dos moradores de favelas vão além da negligência do Estado. Parte da grande imprensa adotou o termo “guerra” os conflitos armados entre facções e milícias pelo controle de bairros de municípios do Rio. Tratar como guerra conflitos armados em favelas faz parecer normal ter casas crivadas de balas, sangue correndo pelas escadarias e corpos empilhados nas praças. Para a jornalista Cecília Olliveira, especialista em segurança pública e política de drogas na América Latina, e diretora do Instituto Fogo Cruzado, há motivos para não tratar a questão desse modo.

“Existe uma razão para não chamarmos o que acontece no Rio de Janeiro de guerra: não estamos em guerra, nem do ponto de vista político e nem jurídico. Há sim conflitos, disputas e confrontos, mas são de natureza urbana e resultado de leniência governamental e ausência de políticas públicas. A guerra pressupõe o “inimigo”, o “nós x eles”, mas especialmente no Rio de Janeiro essa divisão é, muitas vezes, impossível. Vejamos o caso das milícias, formadas em grande parte por policiais. Eles estão “dos dois lados”. Essa divisão também é inviável quando se pensa no caso de arrego e venda de armas feitas por agentes públicos de segurança”, pontuou.

Cecília também crê que o fato de os veículos denominarem essas disputas como guerra não é casual.

“Esse discurso, replicado pela imprensa, é apenas assessoria de imprensa para governos de estado. Não é uma guerra. É o resultado de corrupção e mau planejamento somados à falta de investimentos em pessoal e inteligência e o descaso histórico – e complacente – com áreas do estado. Por outro lado, isso pode, também, ser a meta”, finalizou a jornalista.

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