O caminho até o pódio: a desvalorização dos atletas verde-amarelo

O ano de 2021 chegou na expectativa de aliviar as tensões políticas e econômicas que rodearam o mundo no ano anterior, afetado em larga escala pela pandemia do coronavírus. Ainda que tenhamos passado por situações inesperadas e desesperadoras, a comunidade científica se mostrou uma grande aliada da humanidade. As pesquisas de frente ao combate da Covid-19 evoluíram de maneira que nos mostraram soluções sociais e sanitárias eficientes para a redução da infecção do vírus e, também, vacinas eficazes produzidas em tempo recorde.

Dezesseis longos meses após o decreto oficial de pandemia pela Organização Mundial da Saúde, o mundo consegue ter seu primeiro contato com a normalidade desde o início desse período pandêmico, com a realização dos Jogos Olímpicos, desta vez sediado na cidade de Tóquio. Após duas datas adiadas, o Comitê Olímpico Internacional decidiu prosseguir com os jogos ainda este ano, seguindo todos os protocolos sanitários estipulados pela OMS – ainda que a entidade seja contra a realização do evento neste momento. A insatisfação não se restringe apenas a instituições mundiais. A população japonesa se opõe à realização dos jogos, já que colocariam em risco toda a ilha, que passou por crises sanitárias e estruturais, desde 2013, quando o país foi anunciado como anfitrião.

Em paralelo às catástrofes sociais e políticas ao redor do mundo no contexto das Olimpíadas, é importante entendermos o processo de preparação dos atletas após esse período conturbado, sobretudo para os atletas brasileiros que ainda vivem em meio a essa crise. Esse momento de fragilidade psicológica que rodeia nossos atletas é apenas um dos diversos fatores que desfavorecem suas performances nos jogos. A falta de investimento financeiro, incentivo e, principalmente, patrocínio, seguem sendo os principais empecilhos para os atletas – o que nos leva a questão central do texto: O Brasil valoriza seus atletas?

Recentemente, o pugilista Esquiva Falcão chocou as redes sociais ao divulgar sua nova fonte de renda. Longe dos ringues e sem patrocínio, o medalhista olímpico estava vendendo mini pizzas para sobreviver à crise econômica durante a pandemia. Esquiva tem uma honrosa carreira no boxe: filho do famoso boxeador Touro Moreno, e irmão mais novo do também boxeador Yamaguchi Falcão. Esquiva e Yamaguchi foram responsáveis por quebrar o hiato brasileiro de 44 anos sem medalha no boxe, nos jogos olímpicos de Londres, em 2012. Yamaguchi Falcão ocupou o terceiro lugar no pódio, garantindo a medalha de bronze, e Esquiva Falcão se sobressaiu uma posição acima levando a medalha de prata com a grandiosa marca de 28 vitórias em 28 lutas, sendo 20 delas por nocaute. 

Na época da conquista da medalha, Esquiva foi um dos primeiros a falar em rede aberta sobre a hipocrisia da nação verde-amarela sobre seu feito. “Eu só não fui campeão olímpico porque o Brasil ainda não tem a tradição do boxe. A mídia não acredita, não transmite lutas, não nos dá reconhecimento, e isso nos atrapalha para negociar lutas com os melhores e ter chances de ganhar um cinturão”. As críticas a respeito da valorização dos atletas olímpicos e do esporte no Brasil são pertinentes. Descaso que ficou ainda mais evidenciado quando o Governo de Jair Bolsonaro decidiu extinguir o Ministério do Esporte no final de 2019, além da polêmica decisão do corte na bolsa atleta, em 2018.

No decorrer da avaliação dos atletas brasileiros, foram divulgados dados que comprovam o descaso governamental. Segundo o “DNA do atleta” levantado pela divisão de esportes da Globo, dos 309 atletas selecionados para representar o país, 42% não possuem patrocínio. A situação piora à medida que as informações sobre fonte de renda são apresentadas: 19% recebem uma renda mensal menor que 2 salários míninos e 7% recebem uma renda mensal menor que um salário mínimo. No momento, dentre os medalhistas brasileiros desta edição, todos possuem patrocínio de grandes empresas, ou são atletas de grandes clubes.

Quando segregado o futebol dos demais esportes olímpicos, a desvalorização se mostra ainda mais presente. Por mais que o Comitê Olímpico Brasileiro destine a verba de forma igualitária entre as modalidades, é evidente que o futebol se sobressai massivamente em todas as questões, com possibilidade de incentivo financeiro externo e privado. O crescimento exponencial, que levou o futebol a ser um dos ícones da cultura brasileira, foi graças à mídia brasileira no período da ditadura militar, que usou a boa fase da seleção brasileira nas copas do mundo para promover o governo ditatorial como a “referência no crescimento esportivo de uma nação”. A partir daí, a mídia se torna grande aliada e responsável pela hiper valorização do futebol em relação a outras modalidades.

Além das questões midiáticas, o contato tardio e independente com o esporte, por parte dos jovens, é uma das razões que tornam mais difícil o acesso deles à carreira profissional. Quando comparado com o incentivo estrangeiro, desde a escola, o Brasil se vê em uma terrível desvantagem na qualidade técnica em determinados esportes pouco populares, que necessitam de uma introdução de fora das telas. O incentivo público especializado, aplicado agressivamente em escolas e universidades, poderia mudar a atual realidade, e tornar o manto verde-amarelo sinônimo de potência esportiva, em modalidades além do convencional. 

Diversos atletas brasileiros conheceram o esporte através de mobilizações comunitárias nas favelas e periferias que viviam. Uma delas foi Rafaela Silva, judoca campeã olímpica e mundial, nascida e criada no bairro Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. Após conquistar o ouro nas olimpíadas do Rio em 2016, todos os holofotes se viraram para sua trajetória e história de vida, onde mostrou, mais uma vez, o enorme potencial esportivo a ser explorado nas comunidades brasileiras.

As olimpíadas continuam revelando o enorme potencial que os atletas brasileiros têm, dessa vez em Tóquio, com a inédita estreia de mais 5 modalidades. A esperança é que o Brasil quebre recorde de medalhas, já que os atletas selecionados para os Jogos, são nomes crescentes nas novas modalidades, contando já com duas medalhas de prata no Skate Street, e uma de ouro no Surf (com menção honrosa à bateria final das classificatórias de Gabriel Medina). De todas as medalhas conquistadas pelos brasileiros, a que teve maior impacto, sem dúvidas, foi a de Rayssa Leal, skatista mirim maranhense que trouxe a primeira prata na categoria feminina, com apenas 13 anos. O impacto que essa conquista tem no Brasil e no mundo é impressionante, e traz a esperança do fortalecimento da cultura de rua ao longo dos anos.

Mesmo que a inserção de novas modalidades não resolva as problemáticas citadas, surgem novas expectativas em torno da popularização e investimento público nos esportes dominantes no país, principalmente no skate, por sua crescente relevância mundial. Atualmente já existem ONG’s dedicadas à prática do skate como é o caso da “Estação Skate“, no Complexo do Alemão. Os investimentos públicos em cima dos esportes urbanos tem que começar de forma massiva, para que as “fadinhas” comecem a voar cada vez mais cedo.

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