Nossa bandeira sempre foi vermelha

No dia 18 de maio, o perfil @Marqueszero fez a seguinte proposta no twitter: retirar das mãos dos Bolsonaristas a imagem da bandeira do Brasil. Para isso, ele convidou diversos perfis a colocarem no seu nome o ícone da verde e amarela. Algumas personalidades como a youtuber Nil Moreto e a atual querida da internet Gabriela Piroli aceitaram a ideia, entre diversos outros perfis. É mais performance do que ação concreta? Certamente. É uma ideia ruim? Não, disputa de conceitos e ideias é de extrema importância no cenário político, e o sentimento de “amor ao país” é algo muito caro para muitos. Ao adotar a bandeira nacional como símbolo, é facil para os Bolsonaristas se travestirem de “patriotas” e acusar seus adversários de traidores da nação.

Foto: Reprodução

No mesmo dia, à noite, outra história se desvelava na rede, com o perfil @_danblaz pedindo ajuda, após seu primo João Pedro Matos Pinho, de 14 anos, ser baleado por policiais, ser colocado em um helicóptero e desaparecer. 12 horas depois, na manhã do dia 19, o corpo de João foi encontrado no IML de São Gonçalo.

Esse crime não é excepcional no Brasil, não é um fato extraordinário. É um mero efeito colateral de ser morador de favela e negro no Brasil. Ao cumprir esses dois requisitos, você se torna um alvo da violência estatal. No Brasil se joga bola, bebe caipirinha e a polícia mata pessoas marginalizadas.

E em qual momento da história isso foi diferente? Existiu algum momento cuja essa bandeira, verde e amarela, não foi hasteada acima do sofrimento de milhares de pessoas? Nosso atual símbolo nacional foi criado em 1889, mas de novo mesmo, só o círculo azul no meio. O verde e amarelo é herança do Brasil império, construído nas costas dos escravos. Nada mais coerente para um país que nunca encarou de fato seu passado escravocrata, ter como símbolo cores que representam a dor de muitos para a bonança de poucos. No seu livro O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro calcula que “O Brasil, no seu fazimento, gastou 12 milhões de negros, desgastados como principal força de trabalho de tudo que se produziu aqui e de tudo que aqui se edificou”. Os descendentes daqueles responsáveis por isso continuam no poder, vale lembrar, já que nunca no Brasil a elite foi desafiada de fato.

Até mesmo o ex-presidente Lula, numa tentativa de fazer parecer que seu governo não atentou tanto contra a vida de pretos e pobres como o atual, reproduziu uma imagem de um Brasil que jamais existiu. Mesmo vindo da periferia brasileira, Lula não se precupou em desmantelar essa estrutura, mas simplesmente lhe deu outra face, uma maquiagem. “Agora a polícia bate em quem tem que bater”, disse ele sobre as UPPs. No seu perfil no Twitter, Lula lamentou a morte de João, mas os usuários fizeram questão de lembrar que a mão do ex-presidente não está limpa.

É fácil aderir a ideia do Brasil como um país alegre e para todos, mas isso nunca foi uma realidade concreta. O Brasil sempre foi um moinho, Brasil Império, República, Ditadura, na redemocratização, e essa bandeira sempre esteve lá, triunfante.

‘Temos que tirar o controle da imagem do nosso Brasil dos bolsominions”, ora, para que? A bandeira está nas mãos de quem sempre esteve, de uma elite cruel e de uma classe média mesquinha. Não há incoerência alguma no orgulho que eles têm dela: Ela sempre foi deles, daqueles que fizeram questão de tripudiar da morte de negros, com suas fake news e comentários maliciosos.

Nosso passado, e presente, é sombrio, marcado pela dor. Faz sentido querer resgatar símbolos desse passado?

Arte da capa: Gabriel Caetano

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