Moeda de Troca

Uma crônica sobre a realidade do trabalho infantil no Brasil.

Gosto mais de Ibicuí depois que conheci a Camila. Tudo bem, ela é 2 anos mais velha que eu, mas isso não importa. Talvez importe o fato de ela ser minha prima — mas é uma prima distante. Na verdade, só estou procurando motivos para tentar uma aproximação no final desse mês, já que vou pra lá novamente. Da última vez, em 2016, eu tinha 10 anos e era lerdão, mas agora tôesperto.

Minha mãe deu o papo de que vai aproveitar minhas férias da escola pra visitar a família que ficou por lá. O Nordeste é muito bonito, mas Ibicuí não. Se bem que o Rio de Janeiro também não é tão bonito assim. Eu só tô animado mesmo por causa da Camila, porque lá não tem nada pra fazer. Nessa época até tem São João, mas eu não gosto de forró. O problema é que, pelo que fiquei sabendo, Camila tá trabalhando numa fábrica de fazer roupa. Minha tia até falou que ela é uma menina guerreira. Ih, tá maluco, guerreiro pra mim é o Goku.

Pra levantar uma grana e ajudar nas passagens, resolvi dar uma moral pra minha mãe e tô vendendo, lá na escola, as trufas que ela faz. Geral se amarra. Meu amigo Lucas me dá uma força nas vendas também, já que ele conversa com os garotos grandes que estudam no segundo andar. Tô vendendo bem desde maio, mas ultimamente tá sobrando trufa — Lucas tem faltado pra caralho.

Hoje, quarta-feira, dia de Educação Física, o arrombado aparece na escola. Ele é foda, só veio jogar o futebolzinho. Errado não tá.

— Coé Lucão, apareceu hein. Vai chover. — estiquei a mão para o toque inventado por nós, dois gênios do cumprimento.

— A tia ligou pra minha mãe e disse que ia chamar o Conselho Tutelar se eu faltasse mais, mano. Ossada. — Lucas retribuiu o cumprimento e aproximou sua carteira da minha.

— Que isso?

— Sei lá, minha mãe disse que é um bagulho pra encher o saco dos outros. Podem me levar pra morar em abrigo e tudo.

— Maluquice hein.

— Papo reto, mas minha mãe falou que vai vir aqui conversar com a tia. Não posso sair do trem agora.

— Sair do trem? Como assim?

— Tô vendendo as paradas no trem, mané. Não é chique igual trufa, mas tamo tirando um dinheiro maneiro.

— Qual foi, igual aqueles maluco que ficam gritando 1 é 2, 3 é 5?

— Essa parada. E eu não posso sair, tá ligado? Meu padrasto meteu o pé de casa, minha mãe tá na merda. Gabriel já tá no trem faz um tempo, agora tô indo com ele.

— Gabriel é aquele teu primo que estuda no segundo andar, né?

— Pedro, não sei se estudar é a palavra certa, né? O maluco repetiu umas 3 vezes já. Acho que só chegou no Ensino Médio porque a gente estuda em escola pública.

— Tu é repetente também, tem 14 anos e tá no 6º ainda.

— Não fode, muleque. Repeti um ano só.

— Mas e aí, se tua mãe não convencer a tia, tu vai largar a escola de vez mesmo?

— É o jeito né, mano. Preciso ajudar a coroa em casa. Lado bom é que vou ficar livre da Matemática.

— Mas tu tem que saber fazer conta pra dar o troco do Fini.

— Isso nós desenrola. — sacolejou o corpo imitando a malandragem. — No final das contas, tamo nós dois trabalhando. Mais pra frente a gente fica rico.

— Tá maluco, só quero juntar dinheiro pra ir pra Ibicuí e comprar diamante no Free Fire.

Sempre achei que trabalho fosse coisa de adulto e pensei nisso durante todo o resto da aula de Ciências. O sinal tocou — início da gloriosa aula do tio André. Início também do cruzar de dedos conjunto para a atividade do dia ser futebol, não vôlei. Eu e Lucas odiamos vôlei — existem poucas coisas no mundo piores que vôlei. Mas pra mim, com certeza, precisar trabalhar com quatorze anos é pior.

Leave a Reply

Your email address will not be published.