Entre Cartola e Jobim

No dia 15 de janeiro comemoramos o dia mundial do compositor, e como não lembrar de nomes importantes da composição brasileira, como Cartola e Tom Jobim. Os dois fazem parte da história do samba e bossa nova no Brasil. Difícil achar uma pessoa que não conheça pelo menos uma de suas composições nos dias de hoje. Apesar da importância e do valor cultural que esses dois compositores trouxeram para a música brasileira, a trajetória e o fim de suas carreiras percorreram caminhos bem diferentes.

Antonio Carlos Jobim, filho do diplomata Jorge de Oliveira Jobim, nasceu em 25 de dezembro de 1927, no bairro da Tijuca, zona norte do Rio, e criado em Ipanema, na zona sul. Apresentou talento musical muito cedo e ainda na infância já fazia aulas de violão e piano com o renomado professor alemão Hans Joachim Koellreutter. Na juventude cursou arquitetura, desistindo ainda no primeiro ano para se tornar pianista, tocando em bares e boates cariocas. Foi contratado como arranjador em 1952 pela gravadora Continental e depois pela gravadora Odeon, fazendo composições para peças, filmes, musicais e festivais internacionais na parceria de outros compositores. 

Agenor Oliveira, mais conhecido como Cartola, nasceu em 11 de outubro de 1908 no Rio de Janeiro. Era o mais velho de oito irmãos do casal Sebastião Joaquim de Oliveira e Aída Gomes de Oliveira, descendentes de escravos do Primeiro Barão de Carapepus. Nasceu e passou a maior parte da infância no Catete e em Laranjeiras, onde teve o primeiro contato com música nos ranchos carnavalescos e já apresentando talento musical com seus 8 ou 9 anos de idade, ganhou um cavaquinho de seu pai. Em 1919, por dificuldades financeiras, a família se mudou para o Morro da Mangueira. Aos 15 anos, ainda no primário, teve que abandonar os estudos para trabalhar em pequenos serviços. Perdeu a mãe com 17 anos e foi expulso de casa pelo pai, sendo obrigado a perambular pelas ruas e a dormir em vagões de trens do subúrbio. Dividia seu tempo entre composições de sambas e como violonista nos bares e tendas locais e com o ofício de pedreiro.

A diferença gritante entre a trajetória dos dois compositores se torna ainda maior quando vemos o quão desiguais foram suas oportunidades. A invisibilidade social, a falta de estudo e o racismo foram fatores cruciais para que Cartola vivesse a maior parte da sua vida exercendo trabalhos que não tinham nada a ver com música para sobreviver. Foi só aos 65 anos que finalmente uma gravadora abriu as portas para Cartola gravar um CD e suas músicas só vieram a se tornar nacionalmente conhecidas após a sua morte. 

Comparar o caminho de Cartola e Tom Jobim não é de maneira nenhuma comparar o talento e qualidade de suas composições, e sim apontar a higienização musical que acontecia no entretenimento, com compositores negros sendo deixados de lado e só tendo suas músicas aceitas e conhecidas após interpretadas por cantores brancos.  No decorrer da história temos mais exemplos dessa higienização em outros gêneros, como Roberto Carlos e Tim Maia. A música responsável por alavancar a carreira de Roberto Carlos foi composta por Tim Maia: ‘Não Vou Ficar’, de 1969. 

A importância de artistas negros serem representados como são é para que não haja mais esse tipo de apagamento histórico e a atual e futura geração de artistas tenham registros e reconhecimento completo de suas obras.

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