Entre a boiada e as reformas

Imprensa tenta frear boiada de Salles, mas segue fazendo vista grossa à política econômica liberal do governo

O ainda ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles pretendia ter vida fácil para alterar regras ligadas à proteção ambiental enquanto a imprensa cobria a pandemia do novo coronavírus. Aproveitando o foco da mídia sob as quase 3 mil mortes à época, o ministro achou que seria o momento ideal para “passar a boiada” por cima de medidas de proteção ambiental. Na famosa reunião ministerial de 22 de abril – que contou com ameaças de prisão a ministros do STF e governadores pelos ministros Weintraub e Damares Alves – Salles mostrou a que veio e deixou sua colaboração no circo dos horrores.

“(…) Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De IPHAN, de ministério da Agricultura, de ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação, é de regulatório que nós precisamos, em todos os aspectos”, afirmou o ministro. 

Mesmo com a divulgação e repercussão da fala, Salles não exitou em continuar passando a boiada a fim de destruir áreas de proteções ambientais e extinguiu, na última segunda (28), duas resoluções que delimitavam as áreas de proteção permanente (APPs) de manguezais e de restingas do litoral brasileiro – abrindo caminho para a especulação imobiliária nessas áreas. Para a infelicidade de Salles, a Justiça Federal do Rio suspendeu a decisão alegando “evidente risco de danos irrecuperáveis ao meio ambiente” – o que deveria ser uma preocupação e função do ministro da pasta. 

O trabalho da imprensa foi fundamental para a frustração dos planos do ministro. Ainda cobrindo diariamente os impactos causados pelo coronavírus, que hoje já soma mais de 140 mil mortes, a mídia não aliviou para a boiada de Salles e acompanhou de perto as intenções de destruição do ministro. No entanto, a atuação de parte da imprensa sob a política ambiental não se repete quando se trata da política econômica liberal do governo. 

Com status de superministro, Paulo Guedes passou a maior parte do período à frente do ministério da economia batendo na tecla das reformas. Sem ser questionado por parte da imprensa tradicional, o “Posto Ipiranga” do presidente tinha carta branca para florear livremente seu discurso de reformas liberais sem apresentar qualquer outro plano para a área econômica do país. A dependência do ministro no discurso das reformas como salvadoras da pátria acabou rendendo uma página de memes no twitter, que propõe, assim como Guedes, soluções para a economia do país a partir das reformas.

Depois de atritos com o presidente, Guedes já não segue mais com o status de intocável no governo e até mesmo com parte da imprensa tradicional. Porém, o problema não parece ser com a política de Guedes, e sim com a forma como ela está sendo conduzida. O mito das reformas segue sendo divulgado e vendido como única solução ao país, seja liderado pelo próprio Bolsonaro ou até mesmo por Rodrigo Maia, sem um contraponto firme da imprensa sobre as consequências que elas podem causar.

Fazer vigilância sob as políticas ambientais é um papel fundamental da imprensa para impedir que a boiada de Salles siga passando. No entanto, a vista grossa em relação às políticas econômicas do governo pode custar a passagem e a permanência da boiada bolsonarista no poder. Não adianta fechar o sinal para uma boiada enquanto libera a passagem para outra. 


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