É o povo quem produz o show e assina a direção

Da Bossa Nova da zona sul ao Samba do subúrbio, Beth Carvalho foi um dos pilares mais fortes e necessários da música brasileira.

“Todo artista tem de ir aonde o povo está”. A simbólica frase de Milton Nascimento na canção “Nos Bailes da Vida”, do álbum “Caçador De Mim” (1981), dá o tom sobre quem foi Elizabeth Santos Leal de Carvalho. Nascida na zona zul do Rio no ano de 1946, Beth Carvalho pertencia à classe média carioca e desde pequena teve contato com o mundo musical. Na infância, já ouvia as músicas de Sílvio Caldas, Elizeth Cardoso e Aracy de Almeida, grandes amigos de seu pai, o advogado João Francisco Leal de Carvalho. Por ter pensamentos considerados de esquerda pela ditadura militar, João Carvalho foi cassado pelo regime e, para segurar a barra em casa, Beth passou a dar aulas de violão. A música se tornou um ato político já na sua adolescência.

O envolvimento com a música, através da Bossa Nova, foi dando espaço à Beth, que passou a ganhar nome no meio. Nos anos 60, Beth Carvalho se juntou com os jovens Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós, quem eram conhecidos como a “segunda geração da Bossa Nova”, e começou a participar das reuniões do movimento musical que rolavam na zona sul carioca. A parceria com a dupla, junto com Edmundo Souto, lhe rendeu a música “Andança”, que foi sucesso imediato e abriu portas para a carreira. Em 1969, “Andança” virou o título de seu primeiro disco.

A partir dos anos 70, ainda com um forte vínculo com a Bossa, Beth passou a se descolar da zona sul e flertar com o samba dos morros, quando conheceu nomes como Nelson Cavaquinho, Candeia, Walter Rosa, Aniceto e Cartola. Amiga pessoal de Nelson, passou a frequentar Morro da Mangueira, na zona norte, onde ele morava, e a quadra da escola de samba. A identificação com o morro a levou à casa de Cartola, que, com mais de 60 anos — servindo café numa repartição pública -, estava esquecido, mas ainda guardava algumas pérolas consigo. Beth pediu algumas composições de Cartola e decidiu gravar “As Rosas Não Falam” e “O Mundo É Um Moinho”.

Beth reconhecia o potencial que o povo, sobretudo o povo preto, tinha em sua raiz e foi atrás desse talento. Em 1977, despencou da zona sul para o subúrbio, no seu Puma conversível, e conheceu o grupo Fundo de Quintal na quadra do Cacique de Ramos. O grupo, que era formado por Bira Presidente, Ubirany, Sereno, Neoci, Sombrinha, Almir Guineto e Jorge Aragão (mais tarde com Arlindo Cruz, Cleber Augusto e Zeca Pagodinho), tinha uma pegada que ela ainda não tinha ouvido igual. As rodas no Cacique tinham instrumentos como banjo, tantã e repique de mão, criados pelos próprios integrantes, que deram uma nova cara pro samba carioca. Beth ficou encantada com a batucada do tantã dos caras e resolveu “amadrinhar” o grupo. Aproveitando dos recursos e contatos que tinha, apresentou o Fundo de Quintal ao mundo das gravadoras e iria gravar com eles duas faixas do seu novo álbum, mas o resultado foi tão bom que o grupo participou de todo álbum “De Pé no Chão”, de 1978. Através do Fundo de Quintal, Beth dizia que estava trazendo o batuque de volta, o batuque mais primitivo, batido na palma da mão, mais negro.

Mesmo se intitulando apenas como “garimpeira”, por se enxergar somente na função de apontar os talentos que conhecia, Beth Carvalho foi eternizada como Madrinha do Samba. Nascida e criada da zona sul, no meio de uma elite que era (e ainda é) avessa a tudo o que é de preto e de pobre, saiu da sua zona de conforto e resolveu usar seus privilégios em favor de quem precisava, sem cobrar troco de ninguém e dando crédito a quem era de direito. Nunca deixou de reconhecer que o samba é coisa de pele, de pele negra, e se dispôs a ajudar o povo a produzir o show e assinar a direção. Sempre foi convicta de seus posicionamentos políticos e de que tudo, inclusive o samba, era político. “O samba é mais de esquerda, é o povo. Nelson Sargento é de esquerda, Cartola também era”, disse durante entrevista à Folha de São Paulo, em 2015.

As andanças de Beth Carvalho não foram interrompidas. Ela se criou e se firmou no povo e onde o povo estiver ela também estará. Enquanto o povo existir, ainda haverá tempo pra ser feliz. Por isso, quando a solidão apertar, olhe pro povo, olhe pras rodas de samba, que ela estará por lá. Salve, Madrinha!

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