Desabafo sobre uma cultura que se esvai

Em janeiro deste ano, o governo Bolsonaro deixou a sua já frágil máscara de civilidade rachar ainda mais, na forma do infame discurso de Roberto Alvim, o então secretário nacional de Cultura, que repetia, quase palavra por palavra, discurso de Joseph Goebbels, Ministro de Propaganda Nazista, sobre o que deveria ser a arte alemã. Nele, Alvim disse: “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e igualmente imperativa, posto que profundamente vinculado a aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada.” Em sequência, o de sempre, notas de repúdio, dezenas de comentaristas políticos e celebridades se perguntando como que o Brasil chegou nesse ponto. Dessa vez, no lugar do “nada acontece feijoada”, algo aconteceu, Roberto Alvim foi demitido do cargo poucos dias depois, com Regina Duarte assumindo em seguida.

E com a saída de Roberto Alvim, qual mudança real se teve na postura do governo em relação à cultura? Bem, nenhuma. Já que mesmo antes do seu discurso, o governo já possuía uma visão claramente nazista sobre a arte, desejando que as obras nacionais “exaltem heróis brasileiros” e exigindo um “filtro”.

O problema dos indignados de antes não era tanto com o conteúdo do discurso de Alvim, mas sim com a embalagem, “seja nazista mas não dê tanta bola” e é isso que aconteceu, meses depois ao escândalo com o discurso, o processo de desmonte da cultura brasileira segue a todo vapor, em especial no que se refere ao cinema, com o caso mais dramático sendo o da Cinemateca Brasileira, em São Paulo, que teve todos os seus funcionários demitidos após o governo Federal assumir o órgão, e outro, um pouco distante dos holofotes nacionais, é o despejo da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, localizada na Rua da Alfândega, no Centro do Rio.

A escola ocupava, desde 1993, um prédio dos Correios, e, desde então, tem realizado cursos de formação de roteiristas, montadores e diretores, além de cursos livres sobre as mais diversas práticas relacionadas ao audiovisual. Desde o início do ano, as duas instituições travam uma batalha judicial, já que os Correios, que estão em vias de serem privatizados, querem que o prédio esteja novamente sob posse deles. E conseguiram. Após uma audiência no dia 18 de agosto, a Justiça determinou que o órgão Federal retomasse a posse do imóvel, e o futuro da Escola segue incerto.

Não se pode deixar de notar que, ao comentar a situação, Eduardo Bolsonaro disse o seguinte em suas redes sociais:

Trata-se de prédio dos Correios, “emprestado” há mais de 10 anos para uma empresa privada que cobrava pelos cursos ali ministrados e não oferecia nenhuma contra-partido aos Correios.”

Há um tom de comemoração nesses dois tweets, já que agora os Correios não vão precisar pagar aluguel, poupando assim os cofres públicos, e eu simplesmente não tenho palavras para descrever o quanto essa visão puramente transacional da vida, de que só há valor naquilo que te dá em troca algo material, me dói. Dizer que uma escola de cinema que formou mais de 20 mil alunos “não oferecia contrapartida” é simplesmente absurdo. É de uma mesquinharia sem fim, mas muito coerente para o membro de uma família que nunca teve vergonha de expor sua visão tosca do mundo.

Se dizem conservadores, nacionalistas, homens de bem, preocupados em construir uma nação forte. Mas o quê exatamente está sendo conservado? Qual parte da identidade brasileira Bolsonaro e seus asseclas exaltam em suas posturas? Veja bem, conteúdo não é o que falta, nosso cinema é rico, parte essencial da história do cinema mundial, assim como nossa música; o Carnaval é um espetáculo reconhecido no mundo todo, mas o presidente, desde que assumiu o poder, só fez diminuir todos esses aspectos, e ignorando solenemente a morte de nossos artistas, como Flávio Migliaccio, que se suicidou em maio deste ano.

De que Brasil Bolsonaro fala? O que ele vai colocar no lugar enquanto tudo aquilo que nos representa enquanto nação é esvaziado e menosprezado? O projeto Nazista, por mais horroroso que tivesse sido, ao menos tinha uma proposta para a identidade nacional, que passava por uma reconstrução cultural, e o Bolsonarismo? Que nação essa ideologia quer reerguer?

Essa talvez seja o pior aspecto da situação em que estamos, fora liquidar tudo que for possível pelo melhor preço, estamos nas mãos de algo não faz ideia do que fazer, dotado unicamente da capacidade de destruir qualquer coisa que possa sugerir que o mundo é maior do que a visão deles propõe.

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