Crônica sobre um Natal real

Lembro direitinho do Natal do ano passado: pouca animação nos preparativos, muito esforço pra ter a mesa farta, pouca esperança no futuro. Mas o espírito natalino sempre chega, junto com a travessinha de rabanada, pra arrebatar nossos corações. E essa chama acesa eu encontro, todo dia 25 de dezembro, no olhar de cada criança que recebe, das mãos do Noel preto, um embrulho simples com algum bonequinho do Homem Aranha dentro. É impagável a sensação de que, provavelmente, a minha figura ficará na memória dessas crianças e serei lembrado com grande afeto. É isso que se leva do Natal: afeto.

E como é que o Noel vai levar afeto em 2020? De certo que a minha tradição não vai deixar de existir, mas, com certeza, nesse ano vai ser bem diferente, já que não posso abraçar seis crianças ao mesmo tempo enquanto outras trinta estão pulando e correndo ao meu redor. Tem que ser na disciplina, coisa difícil para uma festa que fala tanto sobre união.

E vamos de Madureira!…  pra acabar de comprar os presentes, no dia 24, porque manter a tradição é essencial. Máscara que dona Ester confecciona – e que será brinde pra geral esse ano – no rosto, o frasquinho de álcool em gel melequento no bolso e muita força de vontade para encarar o bairro do meu querido Império Serrano em época de Natal.

Assim como qualquer festividade, acontecimento e fofoca chega primeiro em Madureira, aqui também acabou a pandemia e ninguém avisou pro resto do país. Porra, os camelôs já tão vendendo a vacina*, bicho.

— Irmão, cês tão comprando isso aí daonde? – perguntei apreensivo, risco de tomar um tapão. A minha sorte é que ele só fingiu não ouvir a pergunta.

— Vai querer, chefe? Cinquentinha, vai com agulha, tem certificado e tudo . tilt não, produto bom. Quiser que aplique, fica sessenta. Aproveita a promoção. – e já se virou pra continuar gritando e vendendo tal pioneirismo científico.

— Fica pra próxima, meu filho. Bom trabalho!

Madureira continua a mesma – que alívio. O cachorro com o rato na boca é que dá o charme. Se não tiver isso, a experiência fica incompleta.

Ao final das compras do dia, aquela passadinha no mercadinho pra pegar o biricutico da ceia, porque o Noel não é de ferro, e o pit stop para encher o tanque do trenó – Celtinha, cinza, ano 2012 – que vai rodar bastante amanhã.

25 de dezembro, 11 horas: minha rena de Natal é um vira-lata pretinho que dona Ester encontrou abandonado no Pedro II com uma bicheira enorme. Levou pra casa, tratou a bicheira, e o inquilino se instalou de vez. Demos o nome de “Sheik”, porque o malandro se sente dono do pedaço. Agora, todo ano, ele vai com a gente entregar os presentes e encher o saco das crianças. Ou são as crianças que enchem o saco dele? Dá no mesmo.

A gente abre a porta do carro e já vem a criançada correndo.

— Papai NOEEEEELLLLLLL!!!!!!!!!!!!!!

Porra, coração até erra as batidas. Eu realmente amo ser chamado de Papai Noel. Essa é minha vocação, meu talento.

— Ó, faz fila todo mundo direitinho pra não tumultuar porque não estamos podendo tumultuar, valeu? Vai todo mundo ganhar. – falei, pimpão, mas queria mesmo o abraço sêxtuplo.

A fila até foi feita, mas não posso impor muita ordem: geral colado, um tentando furar a fila do outro, caos. Um caos delicioso. Porque, malandro, como é que eu vou cobrar medidas cautelosas de distanciamento social, máscara de proteção e tudo isso pra quem às vezes não pode fazer a higienização correta das mãos porque a CEDAE corta a água da comunidade e deixa um mês sem abastecimento regular? Como é que eu vou educar em dez minutos crianças e pais que moram em oito pessoas numa casa pequena e, dessas oito, cinco saem todo dia pra trabalhar vendendo KitKat no trem?

— Coé, tio, pensei que o senhor não ia vim esse ano não. – disse um molequinho se aproximando pra pegar seu presente.

— Ué, mas o Papai Noel vem todo ano, ele nunca pode deixar de existir. – respondi torcendo pra que ele ainda acreditasse que eu não era só uma fantasia.

, é que difícil, . Minha mãe falou que achava que o senhor não ia vim porque ninguém podendo comprar presente esse ano. Mas pô, to felizão agora porque ganhei esse presente aqui pelo menos. – balançando o pacote do carrinho com controle remoto que tinha acabado de ganhar.

E nessas horas, meu amigo, a gente engole seco e se esforça pra lágrima não vir. calejado da vida, essa realidade não é novidade pra mim, mas é duro pra caralho toda vez que me encontro num diálogo desses.

— E cadê tua mãe, meu filho?

no trabalho, tio, ela demora muito a vim pra cá, fica o tempo todo lá na dona Marta, patroa dela. com a minha vó, ela ali do lado ó. – falou apontando, e completou: — Pô, tio, mas sabe o que eu queria mesmo?

— O que que tu queria?

— Aqueles frangão sabe, que passa na televisão. Pô, meu pai mora aqui perto da gente e sem trampo faz mó tempão já, desde que começou esse negócio aí de corona e ele falou que nem pegou aquele dinheiro lá que tavam dando. Ele não me contou não, mas eu sei que não tem nada lá pra ele de comer de Natal.

Respira fundo.

— Qual teu nome, filho?

— Jonas.

— Jonas, faz o seguinte. vendo aquele cachorro chato pra caralho ali rodeando as crianças perto do carro? Vai lá e grita a dona Ester e fala assim: dona Ester, o tio Cláudio pediu pra eu vir aqui e falar pra senhora ir comigo ali no seu Pedro comprar uma quentinha pra levar. – olhei nos olhos do menino pra ter certeza que ele estava prestando atenção no recado a ser passado. — Melhor, meu filho, pede pra ela pegar duas quentinha. Vai lá.

E ele foi, todo rebolativo, depois de me agradecer com um reconfortante abraço. Fiquei vigiando, esperando que ele chegasse até a dona Ester – minha estrela guia, minha joia rara –, e, quando ela me olhou para confirmar o pedido, assenti com a cabeça e tudo se fez entendido.

E o espírito natalino, que chega com a travessinha de rabanada, também chega com o partilhar de histórias. Com o partilhar de dores, de esperança, de narrativas. E com essa máscara fica difícil até chorar porque tu fica sufocado, amigo. É assim que se espalha afeto. Até onde minha mão alcança, eu preciso ajudar. É uma obrigação de vida, moral, minha comigo mesmo. E que eu seja força até o fim para que, enquanto aqui eu estiver, o Natal seja amor ao próximo.

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E, para quem foi alcançado por essa crônica: Feliz Natal! A Corre Mídia deseja a você e sua família uma noite repleta de alegria, boas vibrações, carinho e acolhimento. Esteja sempre em contato com sua espiritualidade e não se esqueça do quão importante você é para o mundo.

Que 2021 seja um ano melhor (BEM melhor).

* Essa informação NÃO é verídica. A foto que circula na internet NÃO é de uma vacina sendo vendida em Madureira. Nessa crônica apenas “surfamos” na onda do meme.

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