Bye Bye Brasil, 2019

O entreguismo da cultura pelo bolsonarismo tem um choque de resistência no cinema nordestino. De Bacurau à Bye Bye, a principal regressão se dá na visão identitária do cinema no país.

O filme Bye Bye Brasil (1979), do diretor alagoano Cacá Diegues, completa 40 anos em 2019 arrastando a ideia, segundo o próprio Cacá à época do lançamento, sobre a construção de um país novo: “O filme é sobretudo sobre as coisas que estão nascendo e as coisas que estão acabando no Brasil”. E, tudo que o fez permanecer como um clássico do cinema nacional, pode estar acabando neste novo Brasil, aos olhos do comando cultural do governo Bolsonaro.

Por exemplo, os artistas mambembes da “Caravana Rolidei” não teriam a chancela do presidente para investimento público ao filme, pois, as características devassas e moralmente sujas do trio Rolidei seriam inviabilizados para o financiamento.

Nesse contexto de retrocesso e combate às diversidades culturais do país, o filme Bacurau, que estreou na última quinta-feira (29) nos cinemas, foi celebrado pelo mundo graças a um diretor pernambucano: Kleber Mendonça Filho. Seu longa, dirigido junto ao também pernambucano Juliano Dornelles, já venceu dois troféus no Festival de Cannes e ganhou o Prêmio do Júri. O cinema nacional, aliás, ainda terá o filme A vida invisível, do diretor cearense Karim Aïnouz, como representante brasileiro no Oscar de 2020.

A real é que o sucesso do cinema brasileiro tem a direção e o imaginário voltado para o Nordeste do país, em que o ponto de quase todo enredo se baseia na resistência crítica dos percalços sociais, políticos e raciais vividos.

As bilheterias de grandes longas nacionais relatam que o público brasileiro, de fato, aprecia as histórias dos filmes brasileiros, pois vê retratado na tela sua vida, seus costumes e suas complexidades. O cinema do baiano Glauber Rocha, no Cinema Novo, da baiana Monique Gardenberg, com seu Ó, pai, ó (2007), dos pernambucanos Guel Arraes, Auto da Compadecida (1999) e Lisbela e o Prisioneiro (2003), e Sérgio Machado, do grande Cidade Baixa (2005), em parceria ao diretor Karim Aïnouz, e do cearense Halder Gomes, com Cine Holiudy (2013), são construtores da imagem de um Brasil diverso e questionar aos privilégios, na forma brasileira de reagir. Fora os longas de autores do sudeste que retratam bem a cultura identitária do nordestino, como Narradores de Javé (2004), da paulista Eliane Caffé, no qual venceu prêmios em Pernambuco e na Europa. E, também, o famosíssimo Central do Brasil (1998), do carioca Walter Salles, que traz o identitário nordestino no centro do Rio.

A região, diversas vezes, foi retratada com enfoque na sua seca natural e em miséria socioeconômica da população; porém, a força de resistência sempre foi um contraponto aos males. A crítica, em Bacurau, fez-se na abordagem de temas como xenofobia, pobreza e violência com o uso de armas, e, por caminhos diferentes, foi usado por Cacá Diegues para retratar as mudanças de conexão da realidade entre interior com a cidade grande em Bye Bye.

A censura do governo Bolsonaro, a partir da Ancine, é uma escolha moralista e entreguista aos costumes do próprio Brasil. As críticas sociais ou políticas estão suprimidas a partir de agora; o que, consequentemente, tira o Brasil da cultura mais assentada do Nordeste: a resistência crítica.

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