Eu (não) acredito em bloqueio criativo

Visões diferentes – e muito pessoais – sobre bloqueio criativo. Onde você se encaixa?

Eu acredito em bloqueio criativo

Marianna Garcia

A jornalista Marianna Garcia está passando por uma forte crise artística. São tempos difíceis para os sonhadores – ou o Big Brother Brasil realmente cumpriu seu papel e comeu meu cérebro pouco a pouco. Obrigada, Boninho!

O fato é que, quase como uma regra geral, percebo um esgotamento mental entre amigos de profissão e/ou que atuam em áreas criativas. Esse bloqueio criativo, que não está sendo facilmente subvertido por ninguém – ou quase ninguém –, acaba por limitar conteúdos novos, fazer com que nossas criações sejam subjugadas por nós mesmos, minar nossa autoestima intelectual e criar a sensação de impotência diante dos desafios.

Se criar conteúdo relevante já não é uma tarefa fácil (e a métrica da relevância é atualizada diariamente), quando se está enfrentando um deserto de ideias, a situação fica insustentável. Depois de persistir por mais de um mês numa pauta que não decolou como o esperado, tive que recorrer ao paliativo. “Bom, preciso escrever algo pra mensal de fevereiro e não tenho noção do que inventar”. Pensa, pensa, pensa. Quatro dias pensando. Nada. “Thiago, pelo amor de Deus, a gente precisa pensar em alguma coisa”, e nada, até que um ser de luz abriu os olhos do Thiago para o que, o tempo todo, esteve na nossa frente: falar sobre bloqueio criativo.

Parece batido? Talvez seja. O trivial rende uma boa experiência quando degustado em um momento oportuno. “É fazer do limão uma limonada”, disse Carlos, nosso editor-chefe. A limonada está com açúcar na medida e vou dar uma golada agora: não existe criatividade em tempo integral. Toda e qualquer função que demande exercício intenso de suas redes neurais fará com que você se esgote e, invariavelmente, te levará ao limbo total das ideias. Somando isso ao fato irremediável de que estamos vivendo em uma pandemia, onde o desemprego alcança níveis alarmantes, as atividades de lazer estão comprometidas e a possibilidade de adoecer ou ver um familiar passar pela Covid-19 é grande. Estamos num grande balaio de produção de textos que parecem requentados ou mais do mesmo.

Quando a motivação não existe, o trabalho parece nunca encontrar destino, razão de ser – parece apenas um aglomerado de informações que nunca ficam redondas o suficiente para encontrar seu caminho natural. De minha parte, confesso, falta sensibilidade, falta encarar o processo como algo doce, prazeroso, e não mecânico, jogo de palavras. Falta apreço pela ocupação poética e magistral que é ser um jornalista.

A autocrítica pesada e desproporcional também atravessa a lista de coisinhas que nos levam a essa pequena demonstração de desespero coletivo. O que eu escrevo passa por três editores que aprovam a postagem, por leitores que dão um feedback super positivo e pela minha mãe e minha vó que até choram lendo, mas, pra mim, nunca está bom o suficiente. A autoconfiança é fator crucial para desenvolver bons projetos, pintar bons quadros, redigir bons roteiros e ademais. Tudo está ligado ao que você espera de si mesmo – e se você espera pouco, renderá pouco.Tenhamos foco e propósito naquilo que desejamos e precisamos fazer. A necessidade de produzir nos boicota a todo instante e nos transforma em instagrammers apertando parafusos o dia inteiro, como em uma fábrica – no momento que escrevo isso, de certa forma, estou nessa condição –, mas a fluidez de nosso trabalho criativo depende do nosso esforço individual para absorver o melhor de cada momento cotidiano e transformar isso em uma pauta, em um desenho, em um disco… em qualquer novo produto. Sim, a qualidade desse novo produto depende de nós mesmos. Assustador? Possivelmente. Mas vamos tentar por um dia de cada vez.

Eu não acredito em bloqueio criativo

Thiago “Bob” Oliveira

Eu não acredito em bloqueio criativo. Sei que essa frase não faz muito sentido, mas é verdade. Eu sou daqueles que diz “é só forçar que alguma coisa acontece”, confiante de que na hora do “vamo ver” o que precisar ser escrito, será. Acredito eu que os manuais de escrita, que os vídeos “você quer ser um escritor profissional?”, que imagens motivacionais postadas em perfis de coach dizem o mesmo, inclusive. “O bloqueio criativo é uma mentira”, concluem. Mas então porque será que nas últimas semanas e até meses – quem sabe até mesmo no último ano -, toda minha criatividade parece truncada?

Tenho certeza que não sou o único, mas me sinto esgotado. Não no corpo, que só saiu de casa pra trabalhar e pra um ou outro aniversário pontual de pessoas muito próximas, mas na mente. Fazer sentido do mundo tem sido complicado. A quantidade de vidas perdidas, a falta de perspectivas, o futuro incerto, as notícias catastróficas; tudo isso adicionado ao caos completamente cotidiano da vida no Rio de Janeiro, da vida brasileira. Parece que, simplesmente, tentar entender o que é que tá acontecendo toma toda a minha capacidade cognitiva, quando a noite cai (isso é, quando eu não estou trocando a noite pelo dia em madrugadas ansiosas e inquietas) já estou exausto demais pra fazer qualquer coisa criativa. Geralmente o ideal seria reservar a manhã para a criatividade, mas levantar cedo da cama parece inútil. 

Quando a Mari, minha companheira de pauta, me perguntou que assunto poderíamos abordar depois que nossa pauta original se mostrou mais difícil do que esperada, eu me vi confrontado com a suposta mentira que citei no primeiro parágrafo. Me encontrar no meio de uma jornada insoniosa que terminaria após mais ou menos 32 horas acordado não ajudou. Não era nem sequer a primeira questão criativa pra qual eu não tinha resposta. Nem uma vírgula sequer foi adicionada no meu rascunho de livro há pelo menos um mês. Dezenas de arquivos de contos se encontram abandonados numa pasta do computador, dois ou três projetos de edição de vídeo estão incompletos, não consigo fazer nenhum trabalho da faculdade, tem um roteiro que eu deveria ter escrito há dois dias atrás que sequer tem arquivo ainda.

Curiosamente esse texto, escrito em cima da hora, pruma pauta emergencial, é de certa forma o único argumento que posso apresentar a favor da ideia de que o bloqueio criativo não existe e de que tudo o que eu preciso fazer é forçar um pouquinho. Talvez eu só esteja muito ansioso, talvez eu só esteja deprimido. Talvez o tal bloqueio não seja somente um sintoma de uma doença que em silêncio corrói meu espírito. Talvez eu precise de terapia, talvez até mesmo de acompanhamento psiquiátrico. Mas daí eu precisaria de dinheiro e pra ter dinheiro eu preciso de um trabalho. E isso eu não consigo arrumar. Não que eu não esteja mandando meu currículo para todas as vagas que aparecem pra mim, porque eu estou. Talvez seja uma questão de paciência. Pelo menos assim tento me convencer. O futuro é o final de um túnel escuro que aparentemente estou longe do fim; tomara que pelo menos eu já tenha passado da metade. De qualquer forma, pretendo seguir forçando meu caminho em frente… prefiro acreditar que algo bom vai vir disso.

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