Baixada Fluminense em tempos de coronavírus

“Não sou coveiro, ta?” – Jair Bolsonaro, presidente da república, ao ser questionado sobre o número de mortes por coronavírus no país, no dia 20/04.

No meio de uma crise sanitária, o Brasil enfrenta outro problema: um presidente negacionista. Depois de chamar o Covid-19 de “gripezinha”, Bolsonaro defende o fim do isolamento social e até comparece a protestos que pedem desde a reabertura dos comércios até a volta do AI-5. 

O país, assim como todo o mundo, vem enfrentando a pandemia causada pelo novo Coronavírus. Com 12.391 casos e 1.123 óbitos, o Rio de Janeiro é o segundo estado com mais casos e mortes pela nova doença. E como a Baixada Fluminense, que tem uma população estimada em 3,8 milhões, está reagindo? Ou melhor: como seus governantes têm não só reagido, mas gerenciado esse período crítico?

Com 2.023 casos confirmados até o dia 6 de maio (fechamento desta matéria), e 223 óbitos, a Baixada Fluminense representa 16% dos casos do Estado e moradores sofrem com a falta de testes para todos. Além disso, dois prefeitos da região testaram positivo para o Covid-19: Washington Reis, de Duque de Caxias e Waguinho, de Belford Roxo. Washington Reis chegou a ser internado na CTI do hospital particular Pró-Cardíaco, em Botafogo, mas recebeu alta no dia 22/04, após 13 dias internado. Já o prefeito de Belford Roxo, está sendo tratado em casa. 

Dos 13 municípios da região, quatro estão presentes na lista das cidades mais vulneráveis ao Coronavírus, segundo a Fundação Perseu Abramo, são eles: São João de Meriti, Nilópolis, Belford Roxo e Mesquita. A pesquisa analisou índices que mostrassem a vulnerabilidade da população para o risco de alastramento do vírus Covid-19, como a densidade demográfica, faixa etária, infraestrutura sanitária, saúde e mercado de trabalho. A pesquisa não procura fazer projeção de números de infectados, mas, sim, mostrar as cidades fragilizadas de acordo com as combinações dos índices sociais.

Escolhemos, porém, três municípios como referência para a análise dessa matéria: Belford Roxo, Duque de Caxias e Nova Iguaçu. Liderando o ranking, a cidade de Duque de Caxias tem 502 infectados e 84 mortos. Seguido de Nova Iguaçu com 443 infectados e 49 mortos – e por último, Belford Roxo, com 200 infectados e 17 mortos. 

Perfil de cada governante

Com 100% dos leitos já ocupados, Duque de Caxias tem a terceira maior taxa de mortalidade no Rio de Janeiro: de cada 5 casos, 1 pessoa morre. Diante desse cenário, a cidade  entrou em Estágio de Atenção no dia 13 de março. Mesmo assim, no dia 25 de março, o prefeito do município Washington Reis, postou um vídeo ao lado da secretária de Desenvolvimento Econômico, Agricultura, Abastecimento e Pesca, a vereadora licenciada Leide (PRB), e o irmão, o deputado Rosenverg Reis (MDB), dizendo que não iria fechar templos religiosos, porque “A cura virá de lá”. 

Enquanto isso, o comércio local estava a todo vapor: lojas de varejo, feiras ao ar livre e serviços não essenciais estavam – e ainda estão –  abertos. Uma funcionária do executivo municipal que preferiu não se identificar, afirmou: “A prefeitura está usando cada centavo a favor da saúde, porém, atrasando o salário de geral. Não sei se fico feliz ou triste. Mas vejo de perto que eles estão trabalhando de verdade para conseguir equipamentos, e materiais hospitalares”. 

O que está sendo feito

Duque de Caxias possui atualmente, cinco leitos de isolamento, dez leitos de CTI, para outros casos e 40 leitos em unidades pré-hospitalares municipais. Há também a promessa de ampliação na rede municipal de saúde, com 150 novos leitos e 40 novos leitos para tratamento do Covid-19 na antiga Casa de Saúde São José, que foi adquirida através de recursos do Governo do Estado.

Beatriz Scharras, moradora de Duque de Caxias e formada em biologia, diz que em seu bairro os serviços não essenciais, como salões de beleza, continuam atendendo e sem o uso de máscaras, ela também conta que há muita gente na rua caminhando e correndo. 

A Prefeitura da cidade informou que vem realizando ações de choque de ordem junto aos estabelecimentos comerciais do município de Duque de Caxias. Os comerciantes que insistem em descumprir as determinações, sofrerão as punições estabelecidas em Lei. 

Já na terra das laranjas… 

Com o estado de calamidade decretado desde o dia 31 de março, Nova Iguaçu já chegou aos 443 casos confirmados e 49 mortes. No último dia 27 de abril, o prefeito Rogerio Lisboa anunciou em seu instagram, que o Hospital Geral de Nova Iguaçu (Hospital da Posse) sofre com a superlotação. O prefeito também pediu, mais uma vez, que a população fique em casa, incentivando o isolamento social, e tem adotado medidas necessárias relacionadas ao comércio. 

Medidas que estão sendo tomadas

Antes da superlotação, o Hospital da Posse, recebeu a instalação de contêineres equipados com 25 leitos exclusivos para o tratamento do coronavírus e também teve sua sala verde adaptada para receber exclusivamente pacientes infectados. O município também vem trabalhando na reabertura da Associação de Caridade Hospital Iguaçu, popularmente conhecido como Hospital Iguaçu, antes um hospital de referência do município, que encerrou o atendimento em 2009. No instagram oficial do prefeito Rogerio Lisboa ele tira as dúvidas sobre a abertura da unidade, que contará com 100 leitos.

Além disso, Nova Iguaçu receberá um hospital de campanha, que está sendo construído pelo Governo do Estado. Ele será modular, com um total de 300 leitos, sendo 120 de UTI e 180 de enfermarias. A previsão era que ele fosse entregue no final de abril, porém, a data foi adiada para a segunda quinzena de maio.

Cidade do amor em meio a pandemia: prefeito e filho testaram positivo para novo coronavírus

Com 200 casos e 17 mortes confirmadas até o fechamento dessa matéria, Belford Roxo, segue também em estágio de atenção – o prefeito Waguinho testou positivo para o coronavírus. O filho dele, Nathan, de 15 anos, também foi infectado. Segundo a prefeitura de Belford Roxo, os dois apresentaram sintomas leves, sem febre e falta de ar, e não precisaram de internação, conforme determinação dos médicos.

A prefeitura vem atualizando diariamente sua página oficial do facebook e instagram, com o número de casos confirmados, em análise, descartados e óbitos. Mas nem assim a população parece entender a gravidade da situação. Conversamos com 13 moradores da cidade, que relataram como está o cenário pelas ruas, seja pelo centro ou por bairros mais distantes. Em unanimidade, todos os 13 entrevistados admitiram que a movimentação nas ruas continua normal: lojas abertas, comércio de serviços não essenciais funcionando normalmente, filas quilométricas em portas de bancos e até mesmos festas vem acontecendo.

 “A maior parte que eu vi aberto é de farmácias e mercados (serviços essenciais), mas também vi muitos bares… No bairro onde eu moro (Piam) alguns bares estão funcionando, com aglomeração… Vejo o carro da polícia passando e não faz nada… Muita gente na rua, como se estivessem vivendo suas vidas normalmente!! No centro de Belford Roxo idem. Muitas pessoas na rua, o camelô funcionando…” relatou a artesã Izabelly Ribeiro. 

Uma das entrevistadas, que preferiu não se identificar, denunciou: “A noite o cenário muda, os bares na praça de Heliópolis não estão respeitando. A praça tem se mantido cheia e com muitas aglomerações.” 

Na espera do auxílio, população em risco

Em meio ao caos, milhares de brasileiros estão na busca pelo auxílio emergencial de R$600,00, um benefício financeiro concedido pelo Governo Federal, destinado aos trabalhadores informais em tempos de coronavírus. Em Belford Roxo não é diferente: filas quilométricas nas portas dos bancos ocupam diariamente as calçadas do município. Em um período em que é extremamente necessário que a população fique em casa, em que há inúmeras campanhas pedindo para que as pessoas respeitem o isolamento social, em que muitos não respeitam pelo simples motivo de não quererem, dezenas de pessoas necessitam ir ao banco buscar seu auxílio. Além de aglomerações, uso indevido das máscaras (ou a falta dele), há pessoas dormindo na porta dos bancos.

Um internauta, que preferiu não se identificar, cedeu  imagens de postagens feitas por ele, flagrando dois momentos delicados gravados no dia 29 de abril: no primeiro, 1h da madrugada, pessoas dormem em frente ao banco Caixa Econômica, localizado no Centro de Belford Roxo, em um dos pontos mais movimentados da cidade. No segundo, já pela manhã do mesmo dia, uma fila que ocupa toda a rua, na mesma localidade.

A equação do mal… 

Quem conhece a Baixada Fluminense sabe que é comum vilas residenciais cheias de casas com paredes e quintais compartilhados. Unindo isso à demora ao combate do vírus e um sistema de saúde falido, como o de Belford Roxo que possui apenas 10 leitos de UTI para 501 mil moradores, a tragédia já era premeditada. O excesso de informações falsas também interfere em uma comunicação mais eficaz, o resultado disso são os centros comerciais cheios, com poucas pessoas utilizando máscaras e não respeitando o isolamento social. Vemos o desfecho dessa somatória no número de mortes aumentando a cada dia, como o jovem de 12 anos, morador de Duque de Caxias, se tornando a vítima mais jovem do vírus no Rio de Janeiro e com Nova Iguaçu sendo o município da região com mais casos. 


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