O arrependimento compulsório de Gabriela Pugliesi

Em 12 de março deste ano, pouco antes do aumento no número de casos de Covid-19 e, consequentemente, do início da quarentena em diversas regiões do país, a influenciadora digital Gabriela Pugliesi divulgou em seu Instagram o diagnóstico positivo para o vírus. O contágio, como foi divulgado posteriormente, ocorreu no casamento de sua irmã, no dia 7 do mesmo mês, em Itacaré (BA), por meio de um homem de 26 anos recém-chegado dos Estados Unidos.

Pugliesi, que tem sua fama reconhecida pelo estilo de vida saudável e fitness, pregou, durante todo o período em que esteve infectada, o discurso responsável e coerente do “stay home”, que muitas blogueiras também estavam abordando. Recebeu o carinho da internet para que se recuperasse logo da temida doença e foi porta-voz sobre sintomas e rotina com o vírus, já que foi uma das primeiras “celebridades” a serem contaminadas.

Porém, como a máscara da burguesia que só pensa em benefícios próprios (redundância?) cai muito rápido (às vezes não o suficiente para enterrar o burguês no esquecimento, mas um dia chegaremos lá), a musa fitness foi cancelada pela Tribuna da Internet: no dia 28 de março, Pugliesi publicou um IGTV (ferramenta do Instagram que permite vídeos longos) intitulado “Obrigada, Coronavírus”. Junto ao IGTV, um texto onde agradecia ao vírus por fazer com que “as coisas nunca mais sejam as mesmas”, apontando o lado bom (existe?) da pandemia.

Inúmeros comentários e posts sobre o quão irresponsável é agradecer a uma doença que está causando milhares de mortes pelo mundo todo encheram as redes sociais. Gabriela apagou o vídeo e se retratou dizendo que o agradecimento era uma tentativa de lidar com o vírus de forma positiva. Alguns panos foram passados e bola pra frente.

Foto: Reprodução

O auge da sangria desatada na vida de Gabriela Pugliesi se deu no dia 26 de abril, após uma “festinha” realizada em seu apartamento de luxo no bairro Vila Conceição (SP), para comemorar a volta de Mariana Gonzalez do reality show Big Brother Brasil, contrariando as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para não criar aglomerações. Stories foram gravados aos montes e, neles, apareciam diversas digital influencers sorridentes e despreocupadas como Mari Saad, Bárbara Brunca, Taty Betin e outras. Mari Gonzalez e seu marido Jonas Sulzbach não apareceram nos stories, mas marcaram presença na festa, segundo informações.

Foto: Reprodução

Em um story sozinha, com uma taça na mão, Gabriela profere a seguinte frase: “foda-se a vida”. Se aglomerar pessoas já não tivesse sido suficiente, essa frase jogou a pá de cal necessária na carreira internética da blogueira. O Twitter, régua moral da sociedade virtual, fuzilou a atitude imprudente até que Pugli, com a moral rebaixada a números negativos, publicou um vídeo pedindo desculpas, reconhecendo o erro e se dizendo arrependida. Só que, dessa vez, panos não foram passados. A internet seguiu, por dias, fazendo o seu trabalho de cancelamento e cobrando, de cada empresa que patrocinava a influencer, um posicionamento. E o posicionamento foi o seguinte: mais cancelamentos – agora, de contratos. Estima-se que o prejuízo na conta bancária alcance a marca de 3 milhões de reais, receita assustadoramente significativa.

Do outro lado, vemos um prejuízo ainda maior: perda de relevância. Com a crise, veio a perda de seguidores – mais de 100 mil seguidores perdidos em menos de dois dias. Na tarde do dia 27 de abril, Pugliese, numa clara tentativa de estancar seu declínio, desativou o Instagram.


Foto: Reprodução

Fatos postos à mesa, vamos a alguns questionamentos: se ela não tivesse postado, em seu momento de bebedeira, diversos stories expondo a festa, ela estaria arrependida? O arrependimento vem a partir do cancelamento ou da consciência do erro próprio? O erro de Pugliesi empodera pessoas “comuns”, anônimas, que frequentemente têm quebrado a quarentena se organizando em resenhas (festas realizadas em casa, com amigos)?

De certo sabemos que, quando a poeira abaixar, Gabriela voltará repaginada e pronta para apanhar – e, dessa forma, apanhará menos. É preciso ter experiência em vacilos para aprender a vacilar corretamente e com constância. Nesse processo, ela até que está indo bem. Logo, a internet irá perdoá-la por completo – salvo uns e outros relutantes.

O cancelamento promovido por internautas, por vezes, é impensado e desmedido, mas, em sua maioria, certeiro. Quando imaginar que, talvez, esteja pegando pesado demais e “errando a mão” ao julgar a atitude de uma musa fitness-paz-amor-e-boas-vibrações, lembre-se: stop making stupid people famous. Se o arrependimento for natural, o tempo dirá. Não é necessária empatia com quem não mede as consequências e respira aliviada por ter se curado de uma doença que ainda pode dizimar mais alguns milhares. “Foda-se a vida” é para quem não tem noção do que, de fato, significa viver – ou, para alguns, sobreviver.

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