Amanhã será outro dia?

É difícil falar de 2020 sem se afogar em toda a tristeza e dor que foi esse ano. Evidentemente que coisas boas também ocorreram, para alguém, em algum lugar, mas diante do que esse ano foi, soa levemente desrespeitoso querer procurar diamantes na merda que despejaram em todos nós.

Uma confissão: fui daqueles que acreditava que sairíamos melhor dessa situação, no início de março, no intervalo do meu home office, sentava no meu quintal e imaginava que boa parte das pessoas iriam perceber que o mundo não precisa ser como é. Que talvez pudéssemos desacelerar, ser um pouco mais carinhosos uns com os outros.

Pode ter sido ingenuidade, mas não totalmente sem fundamento, afinal, momentos de crise são propícios para mudança, e como não perceber a necessidade de tal coisa quando boa parte da população não pode ficar em casa para se proteger de uma doença potencialmente fatal?

Se as crises são momentos chaves para mudanças, isso se dá devido a característica de tal evento de evidenciar os erros e colocar tensão nas fragilidades. Como responder a isso é a questão: resolver os problemas, ou acreditar que eles só ocorreram devido ao extraordinário? O Brasil encontrou uma terceira, que é se convencer que os problemas não existem e simplesmente seguir em frente, no máximo pedir que a população se cuide, como se não fosse esse o papel dos governantes. Ações coordenadas a nível federal, estadual e municipal? O Presidente nem acredita que o vírus seja um problema. Não preciso relembrar das frases ditas por ele ao longo do ano, acredito que qualquer um com um pouco de sangue nas veias as carregue na memória.

O líder de uma nação falando “e daí” para mais de duas mil mortes. O poço sempre pode ser mais fundo.

Essa poderia ser a frase resumo para 2020, aliás.

Dos acontecimentos do ano, tudo que poderia ter dado errado deu e da pior maneira possível. Não que se pudesse esperar muita coisa do ano que começou com discurso nazista de um membro do governo. Em um país que constantemente mata pessoas negras a torto e a direito, esse ano contou com o assassinato de um homem negro, João Alberto, por seguranças do Carrefour  às vésperas do dia da Consciência Negra, o sal em uma ferida que nunca cicatriza de fato. Enquanto no Twitter se discutia como reconquistar a bandeira do Brasil, João Pedro, de 14 anos, foi baleado pela polícia. Até o que poderia ser bom deixa gosto ruim na boca. Tanto Wilson Witzel, filho envergonhado do bolsonarismo, e Crivella, o pior prefeito do Rio de Janeiro, foram afastados dos seus cargos, mas em processos que cheiram a retaliação política, no caso de Witzel, ou pura criminalização da política, para o último. Trump perdeu, mas são grandes as chances de Biden, assim como Obama, ser muita pose e pouca mudança real. Sem contar que política é mais do que um indivíduo, Trump não estar mais no poder estatal não significa que sua influência vá se dissipar com o vento.

Na virada do ano, é comum ler, ou ouvir, pessoas falando que querem esquecer esse ano, como se em 1 de janeiro de 2021 a pesada mortalha que nos cobre viesse a ser magicamente retirada para que a respiração volte a ser leve. Mas o ano que passou não deve ser esquecido, muito pelo contrário, não devemos esquecer o ano que revelou o quanto boa parte da nossa classe política e empresarial está disposta a rifar a vida da população, especialmente porque, estando tudo às claras e as máscaras no chão, o caminho para superação começa a ganhar seus contornos também, e não me refiro a vacina – ou pelo menos não somente a ela – mas sim uma via que mostra que as coisas não precisam ser como é. Sim, aquela ideia do início de março permanece viva, mas de outra forma, sem o otimismo de que tudo iria melhorar pois todos teriam seu coração tocado pela situação. 2020 teve dor, mas também teve luta. Nossos países vizinhos foram marcados por protestos, o Chile, até então um “modelo regional” para alguns investidores, explodiu em revolta contra a desigualdade. Nos EUA, protestos contra a morte do George Floyd fizeram com que a Casa Branca apagasse as luzes enquanto seus residentes se escondiam dentro dela.

Assim, o mundo tal como ele é pode ser mudado, mas isso só vai acontecer com organização, sem que se dependa de políticos para lutar nossas lutas. No lugar das mensagens de “Amor e Esperança” típicas de Ano Novo, que 2021 seja marcado pela raiva coletiva direcionada contra aqueles que fizeram de 2020 ser o que foi. Que os empresários que desdenham de mortes e lucram com as mesmas tenham medo, e que os políticos entendam que eles são funcionários do povo, e que a demissão deles pode vir a qualquer momento, não só de quatro em quatro anos.

Mas para isso, 2020 não pode ser esquecido, por mais difícil que seja lembrar de seus acontecimentos. Amanhã pode ser outro dia, mas para isso, é necessário se lembrar das dores de ontem.

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