Além dos quatro grandes: a volta do Carioca 2020 para os pequenos

Os quatro clubes grandes do Rio viraram pautas  pelos posicionamentos de jogadores e dirigentes favoráveis ou contra a volta do Campeonato Carioca 2020. Fora o Fluminense e o Botafogo, os 10 outros clubes foram a favor do retorno do campeonato em meio à pandemia do coronavírus. Com os grandes clubes liderando o debate sobre voltar ou não ao futebol, até que ponto o retorno  é medido pela opinião de quem tem menos recursos?

Aí é que tá. Os clubes menores do Rio tiveram poucas opções senão a de entrar na onda de Vasco, Flamengo e da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj) para logo retornar aos treinos e jogos durante a pandemia da Covid-19, que já matou mais de 10 mil* pessoas no estado. O Flamengo, clube mais rico entre todos do campeonato, fez coro para a volta apressada dos jogos por garantir a segurança dos próprios funcionários. Coisa que os outros clubes não podem assegurar. 

A Vigilância Sanitária fez inspeções em todos os clubes da Série A do Carioca e apenas o Flamengo não teve infrações cometidas. Sem jogos, a renda significativa dos clubes menores está por meio dos direitos de transmissão, que não chegam no momento. Assim, as condições necessárias para a disputa esportiva de todos os times, de fato, é completamente desigual.

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) se colocou contra a volta aos treinos no estado, em maio, e a Ferj e clubes questionaram a competência do órgão para avaliar o retorno, além de alegarem tentativa de impedir médicos de trabalhar.

Entre o vai e vem da Prefeitura e Ministério Público para retomar a sequência de jogos do campeonato, os times menores tiveram mais prejuízos do que soluções para jogar o torneio.

Preparação para a volta dos times pequenos e a atuação do Sindicato dos atletas

A Ferj está custeando os testes para os clubes, chamado de “Jogo Seguro”, desenvolvido pela própria Federação e médicos de clubes do Rio de Janeiro. A Portuguesa fez a testagem em 40 jogadores e membros da comissão técnica há 10 dias. Já o Bangu fez testes, questionários diários, higienização de aparelhos compartilhados e sanitização das instalações, além de ter hospedado todos os atletas em um hotel durante o período de treinos. Os outros clubes também seguem, na medida do possível, as medidas de higienização com o apoio da Ferj. Porém, a organização de segurança sanitária não deixou de afetar as questões financeiras e contratuais dos clubes diretamente com os jogadores no Carioca. Em abril, 159 jogadores estavam com fim de contrato sem mesmo terem a ideia da volta apenas em junho.

C:\Users\Rober ta Azevedo\Downloads\bangu.jpeg
Jogadores do Bangu fazem teste para Covid-19/ Foto: Reprodução

A Cabofriense, por exemplo, precisou rescindir o contrato de nove jogadores da equipe que vinham disputando o Campeonato Carioca no início da competição. O clube conseguiu arcar com as dívidas até março, mas nos últimos meses ficou insustentável. Um dos clubes que não conseguiu testar os empregados foi o Resende. O elenco e comissão técnica foram desmanchados e o clube cancelou o período de teste no começo de junho.

Saferj

O presidente do Sindicato de Atletas de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Saferj), Alfredo Sampaio, que é também técnico e já treinou Vasco e diversos outros clubes cariocas, aponta que o Sindicato só apoiou o retorno por conta das autorizações governamentais e os problemas financeiros dos jogadores. Alfredo foi um dos funcionários do Saferj que foi diagnosticado com Covid-19.

“Os jogadores disseram que estavam (a fim de voltar a jogar), mas não acredito. Acho que voltaram devido à necessidade financeira, as dificuldades que estavam passando”, disse ele.

C:\Users\Rober ta Azevedo\Downloads\Alfredo_sampaio.jpg
Presidente do Saferj/ Foto: Úrsula Nery/Ferj

Em março, Sampaio havia dito que os jogadores estavam receosos em voltar pelo medo de transmitir o vírus para os familiares neste processo. Mas, agora, a proteção do Sindicato, conforme a autorização dos governantes, segue a linha de raciocínio dos próprios atletas. 

“Com exceção de Fluminense e Botafogo, os atletas dos demais clubes nos informaram que voltariam as atividades. Perguntamos se estavam sendo pressionados ou obrigados a isso, eles disseram que não. Estavam voltando por livre espontânea vontade. Mediante a isso, restava o Saferj respeitar as decisões e apoiar. Como fizemos com os atletas do Fluminense e Botafogo que não queriam jogar”, finalizou.

O Saferj fez o pedido à Ferj para que houvesse punições esportivas para os clubes que se aproveitassem do momento de crise e não cumprissem com seus compromissos contratuais no pagamento do salário.

Poucos testes, mas muita pressa

Até o início de junho, apenas 10 clubes haviam feito testes de coronavírus entre os empregados, incluindo jogadores. À época, foram realizados 841 exames:157 resultados deram positivos – destes, 44 eram de atletas. Os números representam a pressa pela retomada dos jogos durante a pandemia.

Com diferenças de campeonatos, a Premier League reiniciou o campeonato depois de 1.195 testes, e resultado de zero de casos em atletas e equipes técnicas dos clubes para Covid-19.

Tradução: Nenhum teste positivo da última rodada da Premier League, 1195 testes em jogadores e equipe.

Tradução: Sexto round de testes de coronavírus na Premier League: nenhum positivo após 1195 testes em jogadores e equipe na quinta e na sexta.
Premier League continuará no dia 17 de junho.

O aguardo da Série B1

Previsto para retornar em agosto, a Série B1 deve se espelhar nos resultados do Cariocão para diminuir os impactos do vírus, mas com um agravante: o apoio financeiro para ter a segurança que os atletas e funcionários diários vão ser testados como na Série A.

Na Série A, poucos clubes fizeram testes de RT-PCR, que é o mais caro e tem maior acerto no exame para Covid-19. A maioria fez testes rápidos nos funcionários e atletas. A Ferj fez a compra de 700 testes do tipo para os clubes. Quantos testes vão ser disponibilizados para os da Série B1, principalmente do RT-PCR? Fica a questão.

O diretor de futebol do Bonsucesso, Luciano Portela, ainda está confiante que o “legado” da Série A deixe os times da “B” mais preparados para a volta da rotina de treinos e jogos respeitando as medidas de saúde para o futebol, mas espera a palavra da Ferj para iniciar o planejamento do futebol do clube. Os times não voltaram ainda aos treinos para a competição.

C:\Users\Rober ta Azevedo\Downloads\luciano.jpeg

Diretor de futebol do Bonsucesso/ Foto: Raphael Santos

“A competição (Série B1) iniciaria no mês de maio, mais tardar em junho. No período que justamente íamos montar o elenco. Por conta da pandemia ficou parada essa montagem de elenco e seguimos parada. A data da volta não interferiu em nada (no futebol), mas estamos aguardando as ordens da Federação para planejarmos”, explicou o diretor.

*Números até a publicação da matéria

Arte de Capa: Narciso Spovith

Leave a Reply

Your email address will not be published.