A sina de espalhar amor

A história da médica psiquiátrica Nise da Silveira e de Dona Ivone Lara na luta antimanicomial é de afeto. Armas para revolucionar o tratamento psiquiátrico.

O mês de maio marca a contínua força do movimento contra manicômios. O Dia Nacional da Luta Antimanicomial aconteceu no dia 18, mas as demandas do movimento iniciaram-se uma semana antes nas faculdades e nas ruas. Com pautas em combate às violações de direitos humanos nos hospitais psiquiátricos e na procura por políticas públicas, as reivindicações também vão ao encontro dos problemas históricos da psiquiatria: a luta contra a guerra às drogas e a criminalização do usuário de drogas, sustentado pelo racismo sistêmico.

A Política Nacional de Saúde Mental do país pensa no paciente com adoecimento mental longe das internações e da longa permanência em hospitais psiquiátricos. Através do movimento da Reforma Psiquiátrica foi possível criar serviços solidários e inclusivos nos anos 90 para que, enfim, em 2001, fosse criada a Lei de Reforma Psiquiátrica, na qual protege e responsabiliza o Estado pela assistência e desenvolvimento das pessoas com sofrimentos emocionais. Uma das estruturas da lei são os Centros de Atendimento Psicossocial (CAPS) que atendem durante o dia evitando que os pacientes fiquem internados compulsoriamente em hospitais, clínicas psiquiátricas ou manicômios. A lei de 2001 assegura direitos e a proteção das pessoas que sofrem adoecimento mental, sem nenhuma forma discriminatória.

A política de saúde mental tem sido uma área de constantes lutas para evitar retrocessos e, neste ano, já enfrenta novos desafios: em fevereiro, o governo Bolsonaro soltou uma “nota técnica” que modifica algumas regras da Política Nacional de Saúde Mental, prevendo medidas como a compra de eletrochoques para o Sistema Único de Saúde (SUS) e internação de crianças em hospitais psiquiátricos para o tratamento de dependentes de álcool e outras drogas. Os precedentes abertos, na lógica manicomial, privilegiam a internação, enquanto coloca de lado a política de redução de danos. Criticada por especialistas, a nota foi retirada do ar alguns dias depois, em mais um recuo do governo.

O Brasil tenta preservar as histórias trágicas dos manicômios do século XIX para não repeti-las. Um marco nessa luta aconteceu na internação compulsória entre 1903 e 1980 no Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais. Conhecido como “O holocausto brasileiro”, o lugar foi o expurgo da sociedade para as políticas eugenistas, eliminação de indivíduos com deformidades no corpo, com doenças raras e, finalmente, com problemas mentais diagnosticados. Calcula-se ao menos 60 mil “pacientes” tenham morrido após serem afugentados das cidades para a reclusão em Barbacena.

Enquanto as doenças mentais eram tratadas no país em semelhança à Barbacena, no Rio, a partir de 1933, no Hospital Pedro II, em Botafogo — hoje conhecido como Instituto Philippe Pinel — a médica psiquiátrica Nise da Silveira rebatia as práticas de tratamento para o adoecimento mental da época. Nise foi presa pela ditadura de Getúlio Vargas, em 1936, por carregar livros ditos comunistas e, também, por suspeita de ter relação com o Partido Comunista. Após o período afastada, entre a prisão e os seus estudos filosóficos, a médica retornou ao serviço público de psiquiatria, em 1944, no Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, Zona Norte. As contestações sobre os tratamentos de reclusão, eletrochoques e lobotomias em pacientes continuaram. Por isso, Nise foi transferida para a área da Terapia Ocupacional do Hospital, local desprestigiado pelos médicos. Mas a revolução começou ali.

À época, a área de Terapia Ocupacional propunha métodos de limpeza e manutenção do espaço para tratar os pacientes com problemas físicos ou mentais e de sofrimentos emocionais e sociais. Porém, Nise buscou, com a sua fórmula de terapia, a comunicação das artes plásticas e a interação com animais como métodos de dignidade e independência para os pacientes. Durante esse período, ela ganhou uma forte aliada na terapia ocupacional: Dona Ivone Lara. Antes de se tornar um dos maiores nomes do samba, Ivone Lara se formou em serviço social na UNIRIO e se dedicou intensamente à profissão, especialmente à saúde mental. Especializada em terapia ocupacional, trabalhou como assistente de Nise e soube usar a música — presente na sua vida desde a infância — com as habilidades de enfermeira para auxiliar no tratamento dos pacientes. Ivone cantava e dançava com os pacientes transformando os momentos de angústia em felicidade, plantando flores para colher alegria, como dito no seu verso em “A vida que a gente leva”.

Ainda contando com o auxílio de Ivone, Nise criou ateliês de pinturas e modelagens e, posteriormente, em 1956, abriu no Hospital o projeto Casa das Palmeiras, colocando gatos e cachorros nos mesmos espaços de pacientes psiquiátricos. O desenvolvimento dos pacientes com as artes da pintura de quadros e modelagens foi tanta que houve a inauguração, em 1952, do Museu do Inconsciente, que permanece até hoje. Nise teve resultados expressivos e junto com o renomado psiquiatra suíço Carl Jung espalhou suas ideias mundo à fora. Desde o ano 2000, o ex-Hospital Psiquiátrico Pedro II se chama Instituto Municipal Nise da Silveira, para homenagear a revolucionária da liberdade inconsciente.

Nise foi umas das primeiras mulheres do Brasil a se formar em medicina. E a preservação da sua história, juntamente com as idéias do Instituto, são essenciais para a imagem do inconsciente do próprio do país.

Nise por Narciso Spovith

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