A Grande Frente Ampla de uma só marcha

A eleição de Arthur Lira, deputado federal pelo Progressistas, para a presidência da Câmara dos Deputados é um fato do qual pode se tirar uma série de conclusões acerca do nosso cenário político, de utilidades variadas. Vou começar pela mais inútil, não por realmente não ter utilidade, mas sim pois as pessoas que poderiam se beneficiar dela simplesmente não estão interessadas em saber.

A ideia de que Bolsonaro “não consegue fazer nada” devido ao impedimento do Congresso está completamente refutada. Ela já não fazia sentido antes, mas agora negar que o Congresso está mais que confortável com o Presidente não faz sentido. Como falar tal coisa quando o candidato de preferência do Bolsonaro conseguiu ser eleito com muita folga? Arthur Lira conseguiu 302 votos, enquanto Baleia Rossi, 145. Cai também a fraca tese de Bolsonaro como alguém “fora do sistema”, esses votos não vieram de graça, ele entendeu muito bem o jogo de Brasília e está mais do que satisfeito em dançar no ritmo certo para blindar a si mesmo e suas crias.

A outra conclusão que pode ser feita diante desse cenário é que não há, de modo concreto, uma oposição de direita – não que isso surpreenda qualquer um que estivesse prestando atenção. Os tão alardeados “moderados” são nada mais nada menos que parasitas que anseiam ficar próximo do poder, não importa o quanto a população sangre. Já a esquerda se mostra cada vez mais perdida em realizar uma oposição eficaz ou de até mesmo colocar uma imagem de união, mínima que seja, já que membros do PSOL acharam por bem realizar uma lavagem de roupa suja em pleno twitter após Luiza Erundina lançar sua candidatura a presidência da Câmara, com David Miranda e Marcelo Freixo criticando a deputada após ela acusar – corretamente – o PSOL de negociar “suas convicções e compromissos políticos históricos ao aderir ao fisiologismo e à barganha por cargos na Mesa da Câmara.”

A reação de seus colegas de partido diante da recusa de Erundina em apoiar Baleia Rossi dão a impressão de que este se tratava de um grande opositor do governo Bolsonaro, alguém capaz de travar seu projeto de morte e de finalmente tirar da gaveta o processo de Impeachment, e não alguém que seguiria a mesma linha de Rodrigo Maia, que é a de fazer absolutamente nada enquanto proferia discursos espinhosos para deixar, pelo menos, a pose de oposição real. No fim das contas, nem o próprio partido de Maia, o DEM, apoiou com veemência Rossi, adotando uma postura “neutra”  na disputa.

Assim, a esquerda, ao invés de tomar uma postura ativa e se unir em torno da candidatura de um nome próprio, preferiu seguir o canto de sereia da direita “moderada” e fracassou duplamente: expôs sua falta de organização a nível partidário e se mostrou incapaz de pautar seus próprios atos, tudo que resta é um “Bolsonaro Não” a todo custo que acaba por fortalecer o monstro que quer derrotar.

O cenário da eleição para a presidência pode ser um preâmbulo para um dos momentos mais temidos de 2022: as eleições federais e estaduais. Na ponta da língua de cada analista político, no lide de cada coluna acerca das eleições, um termo sempre brota “Frente Ampla contra Bolsonaro”. É um belo nome, fornece uma linda imagem dos diversos grupos políticos dando as mãos enfrentando o fascismo, o verdadeiro “ninguém solta a mão de ninguém”.

Mas se tem uma coisa que deve ficar fora da política é a idealização, cabe um olhar muito cuidadoso para quem são os nomes tão alardeados para liderar essa grande união contra o Bolsonaro, quem são esses grandes líderes sob cujos ombros está o peso de nos livrarmos dessa grande chaga?

Sérgio Moro.

Mandetta.

Luciano Huck.

João Dória.

Algo une todos esses nomes, e não é o seu ardor antifascista, pelo contrário, mas sim o fato de que todos eles, em maior ou menor grau, apoiaram o desastre anunciado que seria o Governo Bolsonaro. Os dois primeiros foram seus ministros, Dória baseou toda sua campanha para o Governo do Estado em sua aproximação com Bolsonaro, o famigerado “BolsoDória”, e Huck apoiou Bolsonaro, de modo não tão explícito, mas evidente para quem sabe juntar 2+2. Ou seja, aparentemente, aqueles que nos colocaram no buraco são os únicos capazes de nos tirar dele, linda lógica. Somente a direita dita “moderada” pode nos salvar.

Mas, quando essa mesma direita pode fazer algo para frear Bolsonaro, foi ela que decidiu também apoiar o candidato da Besta para conseguir vantagens. A conta não parece fechar.

E a esquerda? Bem, se ela não aceitar que a Frente Ampla tenha que abraçar Belzebu para combater Satanás, a culpa só pode ser dela se em 2022 Bolsonaro for novamente eleito, e não da constante demonização que é realizada em cima de seus principais nomes. Vale lembrar que, apesar dos pesares, o candidato que chegou mais próximo de derrotar Bolsonaro em 2018 foi Haddad, petista, enquanto os nomes mais de “centro” amargaram posições pífias, Geraldo Alckmin até mesmo largou a política, conseguindo somente 4% dos votos, e Marina Silva, outro nome “moderado”, ficou abaixo até mesmo do Cabo Daciolo.

Em suma, muito se fala da importância de derrotar o Bolsonaro, há um sem fim de vídeos do William Bonner abrindo o Jornal Nacional com duras palavras em direção ao presidente. Mas fazer algo contra ele não está nos planos, pelo contrário, a tática parece ser esvaziar a imagem da esquerda – a “escolha muito difícil” já está nos editoriais – e inflar o centro iluminado, mas cujas mãos estão tão cheias de sangue quanto a extrema direita.

E o pior é que a esquerda parece cada vez mais comprar a ideia da sua própria inelegibilidade, como toda a situação acerca da candidatura de Luiza Erundina demonstra. PSOL, PT e outros partidos não podem depender da boa vontade que tem mais interesse em crescer com o desastre do que em tentar fazer algo de efetivo para evitá-lo. Não é momento de covardia, e de que um outro caminho, minimamente mais saudável, pode ser possível

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