A Expressão da Loucura


Kanye West e Vincent Van Gogh têm mais em comum do que parece. Além de serem artistas que impactaram e revolucionaram suas gerações, ambos foram diagnosticados com Transtorno Afetivo Bipolar, e utilizaram suas artes como forma de comunicação e expressão de seus sentimentos. Obras notáveis como “O Autorretrato Com a Orelha Cortada”, de Van Gogh, pintado em 1889, e o disco “ye”, de Kanye, lançado em 2018, mostra a importância de personalidades como Nise de Silveira, que lutou em prol de tratamentos humanizados para pacientes acometidos psicologicamente, através da expressão pela arte e contato com animais domésticos.

A história da arte é marcada por personalidades excêntricas e controversas em geniais obras. Intrigantes e relevantes para estudo mesmo depois de 500 anos de conclusão. De vez em quando surge na internet o resultado dessas pesquisas com base na vida de Michelangelo, por exemplo, o que altera de maneira indireta a história por trás de alguma obra feita no teto da Capela Sistina. Os sentimentos têm um enorme poder nas mãos dos artistas, e a maior prova disso talvez seja o boato que rodeia a idealização massiva acerca da imagem de Jesus, cuja pintura seria, na verdade, um retrato de Tommaso dei Cavaliere, discípulo e um dos grandes amores de Michelangelo. 

O fato é que, apesar de desenvolver um papel semiótico, a arte é e sempre foi feita partindo das subjetividades. As obras retratam, além da realidade, o estado emocional de cada artista em diferentes fases da vida, e em diferentes épocas. Apesar das subjetividades pessoais terem sua influência nas artes clássicas, foi apenas no início do século XX que os artistas tornaram-as em alegorias primárias, através do expressionismo, movimento que tem como principais representantes Edvard Munch e Vincent Van Gogh.

Por consequência da sua época de criação (durante a Primeira Guerra Mundial), o Expressionismo toma para si o lugar da manifestação dos sentimentos oriundos de doenças psíquicas, como a depressão, o transtorno afetivo bipolar e a esquizofrenia. O cenário de guerra de certa maneira facilitou a forma como pessoas com esses transtornos eram socialmente vistas, sem serem submetidas a tratamentos ortodoxos, tópico que chamou a atenção do psicanalista Sigmund Freud, que em um estudo sobre neurofisiologia concluiu que: “A energia psíquica de pensamentos e impulsos inaceitáveis e primitivos se transforma em uma produção artística socialmente aceitável”. 

A expressão pela da arte esbarra em questões políticas fundamentais para a permanência de tratamentos psiquiátricos humanizados ao redor do mundo. Em decorrência da reforma psiquiátrica italiana, proposta por Franco Basaglia – importante psiquiatra italiano no início do século XX – , Nise de Silveira adota a política antimanicomial no Brasil, confrontando a medicina tradicional entusiasta de eletrochoques e lobotomia, que era utilizado há mais de cem anos, fruto de um processo higienista empregado com a chegada da Coroa Portuguesa no país. Nise foi além da desestruturação proposta por Basaglia, e seu método de humanização foi feito através da arte e do convívio com animais domésticos, como caminho para fortalecer a socialização, empatia e alteridade. Além disso, a noção de alteridade e empatia são fundamentais para a nova psiquiatria, o que configura na proposta da plena compreensão das divergências do outro, e aprender novas concepções de mundo através de lentes marginalizadas.

A “loucura” não está associada apenas aos campos da arte. Leonardo Da Vinci, por exemplo, além de ser o artista por trás da Monalisa, foi um importante arquiteto e matemático do século XV, que sofreu severamente com os problemas acarretados pelo Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Os novos métodos psiquiátricos propostos por Nise e Basaglia se mostram efetivos na sociedade em que vivemos, e artistas acometidos psicologicamente, hoje, podem ser considerados gênios. Lady Gaga e Kanye West são alguns deles. Ambos lidam com o transtorno afetivo bipolar, e utilizam a música, para comunicar sobre a doença em suas artes, e de certa forma contribuem para reduzir os estigmas associados a problemas psicológicos, assunto que chamou atenção do Brasil no ano passado, quando foi utilizado como tema principal na redação do Exame Nacional do Ensino Médio, principal método de ingresso nas universidades federais, que já vem desenvolvendo fortes pesquisar acerca do comportamento e de medicamentos para pessoas acometidas psicologicamente.

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