2º Prêmio Corre!


Premiações são curiosas. Por um lado todos entendemos o quão arbitrárias elas são: pensemos no Oscar, por exemplo. Em suas 92 edições, a maior premiação do cinema norte-americano, mais vezes do que esperado provavelmente, deixou de dar o prêmio de melhor filme praquele que de fato é o melhor filme daquele ano. E claro que a própria noção do o que é o “melhor” é arbitrária em si: quando se julga uma obra de arte, é complexa a sistematização dos atributos que a dão qualidades ímpares o suficiente para que se destaque de outras obras.

Não é diferente com a música: qual a melhor música? O que faz um álbum melhor que outro? Num contexto tão rico e diverso como esse da nossa música brasileira, uma das melhores (sim) no mundo, determinar quem é melhor do que quem é cruel: com tantos artistas incríveis, como fazer justiça a todos eles? Impossível. Alguém ou melhor: a grande maioria dos artistas ficam de fora de qualquer premiação. Isso tudo sem nem comentar que um grupo de jurados, ou seja, aqueles que de fato decidem o que é melhor ou pior é sempre um pequeníssimo recorte da população, e por mais que se tente montar uma bancada equilibrada, essa banca nunca vai conseguir agradar a todos em suas escolhas; afinal, vence aquele que tiver mais votos, não aquele que é unânime. Com uma bancada ainda em criação e formada por voluntários, nós da Corre! entendemos as limitações que enfrentamos e garantimos que nosso compromisso é cada vez mais contar com uma equipe de jurados mais diversa e mais capacitada pra ajudar a coroar os melhores trampos do ano na cena do rap nacional. Dito isso tudo, então, resta a pergunta: mas pra que então premiações? Pois é. Pra quê?

Bem, aceitando tudo isso que já dissemos até aqui, seria também uma grande injustiça deixar de lado o que as premiações tem de mais legal: a celebração daquilo que importa pra gente enquanto cultura. Uma celebração das músicas e artistas que ajudaram a levar a cena um pouco mais pra frente, que nos ajudaram a encontrar novos parâmetros pelos quais olhar pro futuro da nossa cultura. Num ano em que em todos os subgêneros daquilo que convencionamos chamar de rap trouxeram novos elementos e novas estéticas e novos símbolos, é legal celebrar um pouco disso enquanto tá tudo fresquinho na nossa memória ainda. Daqui a 10, 20, 30, 40, 50 e muitos anos essas músicas serão celebradas também; mas é maneiro celebrar elas agora enquanto somos todos jovens e nossas memórias dos shows incríveis que podemos testemunhar ainda não são algo desbotadas pelo tempo. Uma premiação não é só sobre quem vence, é sobre todos os nomeados e a importância que eles possuem pra perpetuação da música brasileira. Esperamos que não somente os vencedores, mas todos aqueles que foram nomeados, se sintam representados naquilo que de melhor temos pra oferecer: a vontade de correr pela nossa cultura.

Melhor instrumental de álbum (curta ou longa duração)

O mestre Black Alien convocou o Papatinho para construir alguns dos beats mais marcantes do ano passado. Papatinho, que desde a época de Cone já tinha se notabilizado pela capacidade de criar beats que ficam sempre naquela interseção entre o que o underground respeita e o mainstream consome. Toda a produção do álbum é assinada pelo Papato que criou a vibe perfeita pra mensagem de superação e experiência que nosso Gustavo de Nikity trouxe pra gente.

Artista Revelação: LEALL

LEALL é desses artistas que todo mundo um dia vai lembrar de quando ouviu pela primeira vez. Minha primeira vez foi naquele Brasil Grime Show em que ele brilhou apresentado pra gente um repertório diverso que deixava evidente o alcance que esse moleque tem. Emplacando dois hits no ano, fica difícil não considerá-lo a revelação do ano passado, mesmo competindo com muita gente que botou a cara e já deixou sua marca na cena. Se a distância entre Londres e Rio de Janeiro diminuiu nesse ano que passou, é muito por causa dele.

Melhor álbum curto: Músicas Pra Drift, Vol. 2

O Buda é um acontecimento. Projeto após projeto, esse cara sempre se mostra mais versátil e mais talentoso. É impossível ignorar o trabalho desse cara, tamanho o impacto que ele traz. Em Música Pra Drift vol 2, Yung Buda nos apresenta uma versão mais polida, mais complexa e mais sistematizada do som que só ele faz. A forma como ele consegue utilizar os samples, as construções líricas e as estéticas dos sons, tudo isso é único no som do Buda. É quase como um multiverso só dele, como são os filmes do Tarantino: comparação que faz todo sentido se pensarmos o quão cinemáticas essas músicas são. Com músicas como “Piloto”, “Califórnia” e “Autobahn (Tempo)”, Músicas Pra Drifit, Vol. 2 nasceu um clássico.

Melhor Clipe: Dollar Euro


A Tássia é foda. Uma das pessoas mais talentosas da nossa cena, Tássia representa o refinamento de conceitos nascidos nos corres mais sinceros da rua. Em Dollar Euro ela e Monna Brutal rimam sobre o dinheiro suado e merecido que fazem. É uma música cheia de uma atitude afirmativa, uma confiança que nasce de se conhecer depois de muito duvidar de si, depois de muito duvidarem de você. Uma música pra esfregar na cara de quem não aguenta com as pretas que trampam e fazem dindin. Sem que ninguém possa dizer nada contra; e se disserem, problema é delas! Próspera, essa é Tássia e todas as pretas que correm com ela. E pensar nas coisas que Tássia já deve ter ouvido nesses 29 anos de vida… Parece pouco, e definitivamente é, apenas um prêmio. Como bem dito pelo Oganpazan, Tássia tá aí lançando alguns dos melhores projetos da nossa música nacional não é de hoje, e o reconhecimento merecido ainda tá longe de chegar. Tássia faz parecer fácil nessa música, cantando sem esforço, surfando a batida como poucos sabem fazer. O verso da Monna Brutal é uma facada lírica, ela percorre o beat com um flow ácido e feroz, causando os choro das paquitas. O clipe, com direção de Camila Tuon e Gabiru, é bonito, elaborado, com um visual elegante e apresenta de maneira nova um modelo de videoclipes já consolidado há muito tempo. A coreografia, os planos, a edição, o roteiro: tudo nesse clipe funciona perfeitamente pra te entregar a experiência que a música te proporciona. Você se sente empoderado junto de Tássia e Monna. E é isso que faz de “Dollar Euro”, nosso melhor clipe de 2019.


Melhor Música: Cachorrada – LEALL feat. VND

É chuva de rewind, porra! Rebobina ai meu selecionado, rebobina que essa é absurda. “Cachorrada”, o hit criado por dois dos melhores MCs do Rio, é um divisor de águas: existe a cena antes de cachorrada e a cena depois de cachorrada, ntj. Quase um sucesso instantâneo (o clipe da música, dirigido pelo Rafael Rodrigues aka @ilovemyanalog, já chegou a mais de um milhão de visualizações), essa música foi pique Thanos, inevitável. Qualquer festa que você tenha ido que não tocou essa música pelo menos uma vez, foi uma festa perdida. Não quero saber. Essa música é braba. É a música que parou a cena, difícil é encontrar algum MC que não tenha falado dessa música nesse ano que passou. Basicamente um remix, a música original é  “Where & When” do P Money com feat do Giggs e o incrível instrumental é do Teddy Music. É um testamento da qualidade da nossa música que um remix brasileiro de uma música inglesa consiga alcançar tanta gente dentro e fora do nosso país. É foda pra caralho, é a confirmação daquilo que a gente já sabe de muito tempo: nossa música vai conquistar o mundo, é só questão de quando. Num ano com tantas músicas fodas, colocar “Cachorrada” em primeiro parece a coisa mais natural a se fazer.

Melhor Artista: Djonga

Djonga é tipo um highlander, mané. O cara do hat-trick, três bons álbuns em três anos. Com disposição infinita, Djonga parece cada dia mais se firmar como o líder da nossa nova escola. O cara não para, tem álbum novo pra sair nesse primeiro semestre já. Em 2019, “Ladrão” veio pra sedimentar a carreira dele, garantir que nós nunca vamos poder falar de rap no Brasil sem falar de Djonga. As pessoas pedem seus amores em casamento nos shows desse cara. Vocês tem noção disso, bróder? O Djonga é gigante. Se BH virou a Compton brasileira, Djonga é Kendrick Lamar. Somos sortudos de poder acompanhar em tempo real o desenrolar da carreira desse cara e esse prêmio de melhor artista, que seria merecido pra qualquer um dos indicados, parece ainda mais merecido indo pra esse que já é um dos nossos melhores MCs de todos os tempos.  

Melhor Álbum: Lógos – niLL

Desde o primeiro grave, desde o primeiro sintetizador, desde o primeiro minuto: Lógos é um filme. É uma obra impressionante, ousada, que se revolta completamente contra qualquer mediocridade. É niLL completamente no controle de suas ferramentas técnicas e com seus conceitos alinhadíssimos. O artista jundiaiense mira alto e acerta as estrelas nesse álbum que em momento algum parece soar como algo que eu já ouvi em algum lugar. Pelo contrário, é um álbum muito original, que tem a cara e alma de niLL. E a alma de niLL é essa chama que queima eternamente, que não se apaga. É a chama da verdade artística, o éter do universo. É uma honra poder premiar Lógos como o melhor álbum do ano de 2019 no 2º Prêmio Corre!

Contando com produções de CrimeNow, Yung Buda, Nave Beats, Tan Beats e o próprio niLL que assina como “O Adotado”, as texturas sonoras do álbum são ricas e imersivas. É como se colocássemos óculos de realidade virtual de um jogo do futuro. Quando as músicas tocam, o mundo ao redor muda de cara, me sinto um avatar de mim mesmo jogando pelas ruas da minha cidade. Músicas como a primeira “Lógos”, “Bullet’s”, “Toys” e “Embalagens”, soam como se fizessem parte da trilha sonora de algum videogame futurista com muitas luzes neon. 


Mas é curioso como é sempre um filme que se passa na minha cabeça quando escuto o álbum. Um filme mesmo, desses de hollywood, com personagens marcantes, conflitos bem definidos, heróis e vilões. Um filme afrofuturista, com brinquedos que ganham vida e vivem malandramente seus dias e seus corres. Sobre os desafios de ser um jovem negro no Brasil de hoje ao mesmo tempo que é sobre a oportunidade única de criatividade que essa experiência traz. 

Um álbum que conta com participações incríveis de Bk, ManoWill, Callister, Melk, que brilham, cada um em seus momentos específicos, personagens coadjuvantes mas de muito destaque e qualidade, que ajudam nosso personagem principal a apresentar uma atuação de muita qualidade. Bk com seu storytelling incrível em “Regras da Loja”, Callister com seus vocais perfeitos pra vibe de “Bullet’s”, ManoWill e Melk roubando a cena em “Jive”. Um álbum denso, cheio de referências e contextos, que vibra em todas as direções com novidades e releituras. Cada música desse projeto é um pequeno universo que se conecta com outros, formando um sistema coeso de ideias. 


Lógos é excelência, é nossa música indo pra frente, sem medo de soar como o diferente. Em algum momento de 2019, acredito que em Junho ou Julho, durante a primeira turnê da SoundFoodGang aqui no Rio, o niLL comentou que não era pra nos assustarmos se ele fosse um pouco pro pop nesse disco. Queríamos nós viver num mundo onde esse tipo de música fosse o pop nacional. É uma mistura que cria algo completamente único, como o próprio Brasil. É o que se espera de um melhor álbum do ano: conceitualização, produção e execução impecáveis. Confiantemente, premiamos niLL e todos os que o ajudaram a fazer essa bela obra com o prêmio de melhor álbum do ano por Lógos!

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