12 Fragmentos sobre 2021

1.

Começo esse texto sobre 2021 com uma informação de 2020.

Em outubro do ano passado, minha avó faleceu, aos 96 anos, por conta da COVID-19.

O sonho dela era chegar aos 100, seria o meu também. Ficou como sonho.

Trago essa informação particular para um texto que é tudo menos isso pois acredito que não dá para falar de 2021, e por consequência, também de 2020, sem trazer a perspectiva da dor, do luto, encarado por mim e por tantos outros.

Sim, as vacinas estão funcionando e nossa cobertura vacinal é uma das mais altas. Há motivos para comemorar e respirar aliviado.

Mas mesmo assim, temos mais de 600 mil mortos na nossa memória recente. A maioria ocorreu neste ano de 2021.

Não posso fugir de tentar lidar com isso.

Afinal, uma dessas mortes é da minha avó, de 96 anos, que queria chegar aos 100.

Uma avó entre várias, eu sei.

Mas eu queria que ela tivesse chegado aos 100 anos.

2.

Por mais que a pandemia tenha começado em 2020, acho que foi esse o ano que o horror dela se fez mais presente.

Lembram de Manaus? Familiares indo às ruas desesperados em busca de oxigênio para entes queridos, hospitais sem vaga, pessoas morrendo sufocadas.

Era estranho ver algo tão próximo do fim do mundo passando na televisão. Mas assumo que passei boa parte desse ano anestesiado, até escrevi sobre isso aqui. O horror foi naturalizado, aquelas imagens tenebrosas dos manauaras tentando salvar suas famílias se tornaram plano de fundo na TV do trabalho.

Trabalho… a única coisa que não pode parar nesse mundo. Vidas podem, mas o trabalho não, nunca.


As coisas sempre seguem em frente, não dá tempo de parar, mesmo que seja necessário.

3 mil pessoas morrendo por dia no início do ano. 

Enquanto isso, trens e transportes públicos lotados como sempre. Entre a massa de corpos dentro de um vagão, dava para ver um cartaz.

“Respeite o distanciamento social”.

Esqueceram de avisar isso a Supervia e afins.

3.

Na minha cabeça, no início disso tudo, eu imaginava a chegada da vacina como uma catarse coletiva.

Sabe aquele áudio do whatsapp que viralizou, onde alguém falava de chegar no posto dançando, tomar vacina e sair já comprando um latão? Eu tinha isso como verdade, que tudo seria uma enorme festa a partir desse momento.

Fui, é claro, ingênuo. Foi uma luta enorme simplesmente para que as vacinas chegassem ao Brasil, com nada mais nada menos que o próprio Presidente agindo contra.

Não que surpreenda, mas que filha da puta.

Devido a isso, por um tempo João Dória foi, de certa forma, Presidente do Brasil, prometendo distribuir vacinas a todo o país, enquanto o Ministro da Saúde dizia a célebre frase “a vacinação começa no Dia D, na hora H”.

Reconfortante, não dá para culpar quem teve certa esperança com a figura de João Dória nesse caso.

Esperança e Dória na mesma frase, quem diria.


Em todo caso, quando minha mãe, que trabalha em posto de saúde, foi vacinada, quase chorei.

Imagino que muitos outros filhos e filhas tenham chorado.

Um momento de alívio.

Me vacinei muito antes da maioria das pessoas da minha idade, benefícios de se trabalhar em um hospital. A minha fantasia de alegria geral diminuindo conforme segurava meu papelzinho de senha e aguardava ela aparecer no painel.

Me vacinei, não tirei foto. 

Voltei a trabalhar.

Viver momentos históricos como uma “pessoa comum” é estranho, sempre soa como uma segunda feira qualquer.

4.

Outra coisa inescapável neste ano: CPI da Covid.

Sua fé nos impactos materiais do que foi descoberto nela depende inteiramente da sua “fé nas instituições” .

Eu não tenho muita, mas foi interessante de acompanhar, especialmente porque nosso terror pandêmico ganhou contexto. O que parecia ser somente loucura era, na verdade, intencional.

Remédios sendo empurrados para valorizar contratos, vacinas que se atrasaram pelo mesmo motivo.

O “Véio da Havan” sacrificou a própria mãe por conta disso. Não gosto de enxergar o estado do mundo por uma ótica binária de “bom vs mau”, mas fica cada vez mais difícil diante desses eventos.

Penso em quantas pessoas, cegas por essa visão absurda do presidente e de seus lacaios, não condenaram entes queridos à morte, ou por não acreditar na gravidade da doença, ou por acreditar em um tratamento que não era a bala de prata que achavam que fosse.

Penso novamente na minha avó.

Sinto certa falta do tempo onde dava pra se iludir melhor com a ideia de que política não interfere na “vida real”.

Infelizmente, ou felizmente, não tem como acreditar nisso mais.

5.

Mas a capacidade humana para crer no absurda é infinita. Em um país devastado pela pandemia, com economia no chão, pessoas fazendo fila para comprar osso, dezenas de pessoas saem às ruas para… defender o presidente.

Defender porque, para que e de que? Eu também não sei, assumo que desisti de entender também.

É impossível olhar para o passado e achar que alguma coisa hoje melhorou de alguma forma. Sair nas ruas para defender tal coisa parece uma marcha suicida.

“Queremos estar pior do que antes”

Movimentos contrários existem, é claro. A palavra impeachment rodou nos noticiários como nunca antes, mas nada de concreto acontece.

Sim, o estado é de calamidade, mas talvez esse seja o plano.

Alguém está se beneficiando disso tudo.

Que pensamento horripilante.

6.

890 palavras dentro do texto e percebo que simplesmente esqueci do ataque ao Capitólio americano no início do ano. O tipo de evento que em um país de “terceiro mundo” seria visto como um motivo para os americanos intervirem de algum modo, parece se tornar uma estranha nota de rodapé na história da “maior democracia do mundo”.

A preocupação de algo similar acontecer no Brasil em 2023 é latente.

Isso se as eleições ocorrerem.

Falarei sobre as eleições depois.

Ou não, apesar das confusões, não há muito o que falar, só há muito o que fazer.

7.
Tá, não dá pra escapar das eleições.

O que se desenha: um esforço enorme para manter tudo como está mas com alguém mais polido a frente.

A ASCOM do Marreco já está a todo vapor.

Certo partido está disposto a se sacrificar mais ainda em nome da governabilidade.

Tudo certo, o jogo é esse.

Mas não deixa de ser cansativo

8.

Ainda teve Olimpíada.

Foi bonito, deu certo orgulho de ser brasileiro ver todo mundo torcendo junto.

Às vezes o Brasil parece um país de verdade.

9.

2021 e 2020 foram anos difíceis.

Por mais que a normalidade esteja no horizonte, nada nunca será como antes.

Nada já não é como antes. Há uma tensão no ar, como se uma linha que não pudesse ser cruzada, foi cruzada, e todos estamos esperando para ver o que vai dar.

Há um limite sendo alcançado.

As coisas não podem ser como eram.

As coisas não podem seguir como estão.

10.

Mudar é preciso, os eventos desse ano foram claros nesse sentido.

Mas para mudar, é preciso parar, avaliar, encontrar um caminho.

Só que não podemos parar. 600 mil brasileiros morreram por isso.

E a vida nos obriga a seguir em frente, mesmo que esse caminho seja o que nos levou até aqui.

Ocupados demais alimentando a máquina de nossa própria destruição para fazer outra coisa.

3 mil pessoas morrendo por dia.

E todos nós vivendo normalmente.

11.

Queria ter sido mais otimista. Não deu, me perdoem.


Feliz 2022, até ano que vem.


12.
Ainda sinto falta da minha vó.

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